28 de mai de 2011

Minha opinião sobre o kit contra homofobia

A Presidenta Dilma, na qual eu e muitas(os) votaram, vetou o kit contra a homofobia. Mas, mesmo diante desse passo para trás, quem acredita na importância de nossas salas de aula não serem um espaço de opressão por questões relacionadas à diversidade sexual deve, nesse momento, quando puder, manifestar sua indignação e trazer para o debate o quanto é opressora a heterossexualidade como norma de comportamento. O kit, do qual tive acesso apenas aos vídeos (que podem ser vistos no YouTube), representa um pequeno gesto diante das enormes lutas que ainda têm de ser levadas à sociedade. E a escola é um lugar central para isso.

Sei que ainda terei de aceitar a minha filha ser bombardeada por um discurso cristão, do qual eu não comungo, sobre a OBRIGATORIEDADE de se interessar apenas por meninOs, que virá por meio da tradicional pergunta: “Você já tem namoradinho?”? E isso é a violência mais “branda” que ela terá em seu imaginário que, na escola, será guiado à heterossexualidade. As críticas que o kit recebe têm um eixo central: “o kit incentiva os meninos e meninas a serem homossexuais”. Para quem acredita na heterossexualidade como única forma de sexualidade, a simples visualização da possibilidade de se poder não ser heterossexual já representa uma ameaça para a sociedade homofóbica, que quer que seus valores continuem hegemônicos. O que eu quero é que mais ameaças e resistências venham contra essa sociedade.

Minha filha, que ainda vive dentro de mim, infelizmente não nascerá em uma sociedade sem preconceitos. Mas já crescerá em um país que foi governado por um ex-operário e é governado por uma mulher. As estruturas de opressão vão sendo fraturadas aos poucos e a possibilidade de liberdade já pode ser, mesmo que ainda precariamente, visualizada, apesar de ainda não amplamente vivida. Quem sabe a minha Eleonora leia esse post daqui uns anos e ria de tudo isso e veja nesse kit vetado apenas um embrião da novela adolescente que ela e as(os) amigas(os) assistem quase todos as tardes.

15 de ago de 2010

No porta-retratos

Willem de Kooning

O último retrato vale para sempre
Carlos Drummond de Andrade

Os cabides, na solidão das duas portas abertas do armário, não penduram mais suas roupas. Sobrou apenas a favorita: um vestido de linho lilás com detalhes em branco. O comprimento no joelho e as mangas a meio braço deixavam um pouco de pele em contato com o mundo, mas o principal é o bolso escondido em que guardava dinheiro. Ninguém sabe os segredos que uma costureira pode ter, os bolsos que se escondem com falsas costuras e zíperes invisíveis.

Quase todos os seus vestidos eram do mesmo modelo, seu molde está guardado na última gaveta da mesa de cortar, junto com algumas tesouras imprestáveis e botões cobertos de tecidos coloridos. O molde não tem mais serventia, pois suas medidas não batem com o corpo que o originou, elas se perderam com o seu fim.

Na tentativa de remendar o buraco que se criou, minha mãe colocou ao centro da mesa de cortar um porta-retratos com a última foto tirada de minha avó, na qual ela está com seu vestido favorito. Mas a cadeira, que por debaixo eu via os pequenos pés com havaianas, está vazia, e a eternidade não consegue remendar.

A cada passo que imagino, e que ao mesmo tempo sei que não será dado, corre a desrazão. Ela desmiudava meus pensamentos apenas com seu olhar, o mesmo do retrato, com a boca cerrada, as narinas erguidas e os olhos firmes. As mãos, uma sobre a outra, denunciam o Sol que por elas já raiou. Seus pequenos olhos azuis têm vida na fotografia com efeito de cor da nova câmera fotográfica da minha irmã, traz a luz do mundo ao retrato.

O jardim, repleto de folhagens e girassóis cuidados por suas mãos, parece mais verde do que me lembro da realidade daquele dia. Não sei se foi o tempo ou a câmera fotográfica, contudo a sensação aumentou. O desaparecimento cala e abafa. O que era impressão e suspenso se torna aporia sem pedir licença.

A porta aberta ao fundo me diz sobre o cheiro de café que dela advinha às seis da tarde, pontualmente, e da conversa sobre o dia cheio de afazeres corriqueiros. Os retalhos no parapeito trazem à tona a vassoura que os juntava ao fim de um dia de trabalho, com seu volume a depender da quantidade de tecidos cortados e recortados. As cores são tantas que em contraste com o verde da folhagem, o laranja da casa, o branco das janelas e o lilás do vestido parecem dar a tonalidade de um paraíso sem céu. Com toda essa oposição de cores, o que ainda chama e toma mais o olhar são as pequenas mãos e pés. Não há quem sobre eles não volte os olhos.

A textura do tecido não é a da pele. O sucessivo contato não estabelece continuidades. As rupturas não deixam de se intensificar e agigantar. Além da ausência do corpo, da voz, do tato, entre outras, os objetos que por tempos acompanharam sua existência foram paulatinamente se esvaindo. O mais difícil foi tirar do cabide o vestido lilás, dobrá-lo, alisando cada amassado, e guardá-lo ao fundo da gaveta-do-que-não-se-usa-mais. Depois dele, outros vieram, como seu armário, que foi vendido por meio de um anúncio colocado em frente minha casa. Com cada interessado que entrava para ver o armário, retornava a lembrança das manhãs em que se ouvia um leve ranger de portas juntamente com um pigarro insistente.

Para dar lugar a novos móveis, também a cama foi embora com o pequeno criado mudo. O inferno aparente de se dividir quarto com uma irmã e um irmão tinha acabado. Ganhava um quarto todo meu: o sonho de toda a vida! O que não podia imaginar era a solidão de se ler sem ter o ruído da irmã ouvindo Metálica no fone de ouvido e do irmão teclando incessantemente. Nunca havia previsto o vazio de não se ter incômodos. Mas foi assim que as coisas ficaram para não ter de dar o braço a torcer e ter de voltar atrás de um desejo tão reivindicado, apesar de a visita constante aos quartos ter virado rotina. O vestígio de que um dia aquele quarto fora de minha avó foi se apagando aos poucos.

As transformações no quarto de costuras não foram tão indolores assim. Uma máquina de costuras. Uma mesa de cortar. Uma cadeira acolchoada. Dois banquinhos. Um sofá puído de dois lugares. Um antigo tear. Uma prateleira. Uns artigos diversos de costura. O novo porta-retratos. Nada disso queria perder seu espaço, é como se tivessem criado raízes imaginárias que levassem diretamente ao planeta-sem-corpo em uma conexão onde o objeto e sua alegoria tivessem se naturalizado e a presença de um se tornasse a presença de outro sem estranhamentos. Com o passar do tempo, o comparecimento constante dos objetos tornou a ausência da vida uma tristeza apaziguada. O apego anterior à existência migrou aos objetos.

Seu quarto pessoal não lhe corporificava como seu quarto de costuras. As duas portas – uma para a rua, outra para o resto da casa – e as duas janelas são, mesmo que isso possa ser entendido como clichê, metáforas de seu corpo. Sua existência ensimesmada, aparentemente de poucos afetos, recolhia no fundo uma vontade de expansão. De suas mãos calejadas de alfinetes e agulhas tive poucos afagos. Me embrenhava em seu colo esperando suas mãos – mesmo sabendo que lhe custava muito – que com esforço vinham contidas, mas amáveis. De bruços em seu colo, olhava seus pés um sobre o outro.

13 de jun de 2010

Apresentando uma nova narradora

"Dali pintando Gala de costas" - Salvador Dali (1973)

Logo quando conheço uma pessoa, finjo não reparar em seu olhar de perguntas. Com o passar do tempo, quando me aproximo mais de perto, invariavelmente as pessoas me perguntam sobre quem eu sou. Não basta saberem de meu presente. Meu passado – posso fazer mais quantas intervenções cirúrgicas forem imagináveis – está inscrito em minhas diferenças.

Certa vez me falaram que o remendo é que denuncia o rasgado. E os remendos sempre me foram necessários. O nome que consta em minha certidão de nascimento é um que eu não uso. Fui chamada assim por muito tempo. Nunca desgostei desse nome. Ele diz quem fui por muito tempo. Quem fui criado para ser. Mas o risco do meu bordado foi (e é) feito por mim. Por mais que no inicio eu me agonizasse em linhas traçadas por outros, embolando-me no novelo, busquei outras portas.

Não foram as roupas que me fizeram melhor. Nem tão pouco meus cabelos que deixei crescer, também os hormônios não me mudaram tanto assim. Nem mesmo a cirurgia para mudança de sexo. Também não foi meu primeiro amor, nem o primeiro beijo ou a primeira relação amorosa. Descobrir-me quando imaginei minha primeira personagem.

Por mais que eu tenha a criado como minha imagem e semelhança, fiz questão de colocá-la em um mundo sem olhares com perguntas. Deixei o estranhamento para outra história. A da personagem que criei, eu reservei para tratar só de seus espantos. O dos outros ela nem os conhece. A personagem nem chega a me olhar quando nos cruzamos na rua de tão metida dentro de si.

Sim, também não importa saber de onde eu vim, onde estou, para onde vou. A personagem nasceu de dentro de meu armário repleto de sombras, no momento em que eu o abria para pegar meu casaco. Num dia de frio, as idéias sempre se escondem ao fundo do armário, um dia alguém me disse isso.

(E esta narradora vai entrando no armário. E as luzes do palco se apagando.)

9 de mai de 2010

Apresentando uma nova personagem




Voltando-se para si, olhando-se através do espelho rachado por sua ira, enxerga uma mulher cansada de si mesma, mas que ainda pensa em recriar-se por pelo menos mais uma vez. Busca sentir novamente o primeiro gosto. Mesmo não acreditando nessa possibilidade, ela abre todos os dias os olhos buscando o nunca antes avistado e visto.


Suas mãos não a deixam mentir, a vida não lhe fora de graça. As dobraduras do tempo vincaram sua existência vivida muitas vezes como uma seqüência de encontros e desencontros sem sentido. Também seus olhos bem abertos e negros como a noite em sua plenitude não a deixam mais enganar-se. Aprendera muito cedo que objetivos sem ações são meras intenções. Sua mãe já lhe avisara sobre isso.


Sim, aos 30 anos já se sentia calejada pelo passar dos dias, mas também sabia que passava por um nevoeiro que a qualquer momento podia findar-se. Como se via e sabia que era capaz de abandonar a todos e a tudo, tinha de acreditar que nada valia muito a pena.


Acordava todos os dias para trabalhar porque precisava. Comer bem lhe dava prazer. E tudo lhe custara caro. Olhar todos os dias para seu chefe lhe embrulhava o estomago. Fazer sapatos foi o que lhe restou depois que a terra nada mais quis dar.


Das palavras tomava certa distância. Fazia tempos que se sentia cansada com o desnecessário falatório do mundo. Precisava apenas de silêncio ou de, quem sabe, algumas palavras certeiras que lhe fizessem algum sentido.

10 de abr de 2010

Um sopro quente de vida




Quem sabe um dia eu me acostumo sem me amansar. Guardando a indignação escondida nas mãos bem fechadas para conseguir conviver sendo alguém próximo do que acredito e quero ser. Desde muito, escuto falar que a harmonia e a sensatez são qualidades, e desde então mergulho na falta delas, que, segundo minha miúda forma de viver, são quase domesticações para que se seja uma pessoa média, ponderada: a famosa pessoa normal. Enquanto meus dedos titubeiam em escrever algumas palavras, meu corpo não se furta a vivê-las ao ultrapassar a porta de minha casa. Quando as palavras se fazem, é nesse caos que estou. Vivendo suas contradições e incongruências, não me escondendo do risco. As palavras vãs. São essas de que falo, pois as eternas permanecem acostumadas e amansadas por pensamentos, escritas e bocas alheias. E na briga cotidiana que é a vida de quem resiste à “acostumação” e ao “amansamento”, tiro-me, por vezes, da linha da almejada felicidade e jogo-me para debaixo dos trilhos do trem, sentindo todos os segundos a brisa produzida pelo passar dos vagões.

13 de fev de 2010

A aparência aceitável das coisas

"A aparência aceitável das coisas" - Taigo Meireles (2008)



Sim, estou falando das impossibilidades.

Quando penso em meu descabimento, em minhas escolhas fora de eixo, de esquadro, de prumo: me reconheço.

Quando penso em meu descompasso, em minhas idas e vindas sem tempo nem hora ou mesmo razão: me sinto.

Quando penso em meu destempero, em minha voz desafinada, em minhas palavras que não cabem na conversa cotidiana: me adentro.

25 de jan de 2010

Olhos trocados


Olho tudo ao meu redor tentando buscar resquícios de uma vida que me foi apenas narrada pela voz já castigada pelo tempo. Queria vê-los. Mas tudo me é conhecido. O tempo por aqui não parou. Eu queria me ver de alguma forma nessas paisagens. Completá-las. Já sou outra que não ela. Percorrem-se sempre caminhos que nunca se passará mais. Não encontrei as memórias. O sertão descrito, as estradas de terra vermelha. Eu queria escutar aquelas vozes contando e cantando histórias e um motor barulhento de pau-de-arara roncando no qual eu estaria pendurada em uma rede comendo paçoca socada um dia antes. Sem todos os toques de celular e esse ar condicionado que refresca e que torna tudo tão banal. Até mesmo o vento raro, não o sinto. Há trilhos, luz, estradas, casas de tijolos e antenas. Mas por que quero a estagnação aos outros e não a mim que vivo em uma caixa suspensa no ar com todas as tomadas ligadas?