31 de dez de 2009

xurumelas de fim de ano


Sinto-me cheia de tensões, impasses. Fecho um ano sem resoluções, sem planos concretos, apenas ânsias e pretensões poucas. Nem pareço o que eu costumava ser. Aprendi na marra a gostar do improviso, do acontecimento no momento, da performance jogada no mundo.

Olho ao meu redor e olho para um espaço que ainda carece de história. Serve de espaço para contar uma história outra, com objetos tirados de outro lugar e que ainda estão desengonçados em seu novo lar. Vivi muitos pensamentos nesse quarto. Poucas ações. Muita escrita, sons ecoando por de dentro dessa máquina. Muita tristeza, e pouca alegria. Mas muito orgulho de mim mesma e no que estar por vir de dentro de mim.

Minha garganta dói. Ela insiste em me dar esse aviso de que algo dentro de mim estremece e não encontra por onde se reverberar. O grito preso está na minha garganta, e não está sendo a virada do ano que fez ele ir-se e não mais voltar.

O sentimento de destruição e reconstrução foi o que o meu corpo sofreu. Não sou frágil, só sinto-me só e dificilmente largo de mim mesma. Ainda estar por vir o que pode me preencher. Talvez nunca isso aconteça. Talvez seja isso viver: estar vazia em buscar de se preencher, já sabendo que nada é capaz disso.

Termino um ano de confusão. Não me aquietei esse ano. Meus pensamentos me perseguiam. Eu me persegui na falta do que buscar. Cansei de mim, tendo só a mim.

Descobri um caminho por mim desconhecido. Tão doido quanto o outro. Talvez eu busque isso. Odeio o “talvez”, mas ele me persegue como eu persigo as explicações e soluções para ele. Tudo em vão.Às vezes parece tudo ser em vão. Às vezes não. O sentimento de valer a pena não bate toda hora à porta.

Quem sabe seja esse o segredo da vida: guardar e não deixar ir embora. Eu não sei fazer isso. Tento prender tudo dentro das palavras, memória, objetos de lembrança, cada cor, odor e sentimento. Mas nada disso mantém vivo o que se tenta guardar. Sempre fracasso. Quando menos espero, já está tudo morto e só me restam velharias e palavras. E elas tiram o frescor, mas também reconfortam como um abraço.

E tudo de novo pode virar começo.


1 de dez de 2009

ausência



não estou sem rumo
mas perdida no caminho

6 de nov de 2009

Me perdi no dobrar da esquina

Quando tive de escolher o meu jeito de ser,
optei pelo mais conhecido de mim,
esse jeito que foge

Marilene Felinto, em Mulheres de Tijucopapo.


A culpa foi minha, ou antes,
a culpa foi dessa vida agreste,
que me deu uma alma agreste
Graciliano Ramos, em São Bernardo


Tenho de confessar que um fantasma ronda minha existência. Ele se chama "a suspeita de nunca encontrar lugar". Acabei de ler o livro Mulheres de Tijucopapo de Marile Felinto, e me coincidindo com a narradora/protagonista, Rísia, tive medo dos eternos desencontros e desacolhidas. Não sei se é o processo de amadurecimento - que tenho consciência de que está só no começo para mim - ou um dado concreto de minha personalidade, mas a questão é que têm sido raros meus encontros com outras existências, seja pela superficialidade nas relações, seja pela discordância, seja pela total e completa diferença. Os choques e fraturas estão ganhando uma proporção que eu nunca imaginei. Poucos são os amigos com os quais eu posso dividir. As diferenças se agigantaram de tal forma com o tempo que quase todos os elos se perderam. Às vezes chego a pensar que o caminhar só traz a distância. Aprendi sim que na amizade tem-se de, muitas vezes, relevar as diferenças e os defeitos. Fechar em alguns momentos os ouvidos para poder continuar a ouvir. Mas nunca abrir os ouvidos não é uma solução. Concordo com Clarice Lispector quando diz que "amizade é matéria de salvação". Porém, estou aprendendo que a amizade é matéria pouca e rara, pois as distâncias se agigantam com um dobrar de esquinas.

1 de nov de 2009

Epiléptico




Uma das melhores coisas que li nos últimos tempos é a história em quadrinhos Epiléptico (La ascension du haut mal), de David B. São três preciosos volumes que valem a pena ler. Em português foram publicados apenas os dois primeiros volumes. Em linhas gerais, trata-se da história da relação de Pierre- François com seu irmão que sofre de epilepsia. Para quem já leu e gostou de Persepólis, de Marjane Sartrapi; de Retalhos, de Craig Thompson; de Umbigo se fundo, de Dash Shaw, e de HQs autobiográficos semelhantes, enfrente a leitura!

26 de out de 2009

Cabo velho




Do pisar nas folhas secas ecoa um som que alivia. Como se tivesse a certeza de que, quando não resta mais nada e tudo já é seco e sem vida, uma beleza qualquer espreitasse a existência frágil de uma folha. A senhora sentada na escada parece saber disso, com seus olhos intumescidos de lágrimas e o esboço de um sorriso na face. O peso de ter de reconfortar o filho possivelmente tirou-lhe a quietude da vida. Colocara para si naquele instante que não podia morrer. Não confiava que os outros pudessem amá-lo como ele agora era.

Olhavam-se nos olhos. Ela logo pegou o pano que ele pressionava na face e tratou de ser a responsável por não deixá-lo cair. O sangue ainda jorrava. E uma secreção não parava de sair das narinas deformadas pela queda. Sentia todo o peso do filho sobre um de seus ombros. Se fora capaz de carregá-lo um dia, hoje não se sentia capaz, mas compelida, como única que poderia fazer aquilo. Sabia que era isso o amor, ele lhe corria pelas veias e sinapses cerebrais. As grandes mãos sem força eram só peso.

A casa estava limpa para recebê-lo. Seu irmão mais velho, do primeiro casamento do pai, veio sem dar uma palavra no percurso em que dirigia. Só a casa o recebia. Todos os irmãos iriam vê-lo mais tarde, quando chegassem do trabalho e da escola. O primeiro que o viu foi o caçula. Olhava o rosto do irmão com asco e fascínio. Não via ali aquele com quem um mês antes saia para andar de bicicleta, olhava para o rosto de alguém que só merecia pena. Sentia-se muito mal de pensar isso, não lhe viam outras coisas, mas sabia que o tempo as trariam.

Look like us - Diane Arbus

Nunca antes ele tinha visto águas tão calmas. Por isso, jogou-se sem medo e por um segundo foi feliz e logo não era mais ele. Rápido assim. Tudo que se passara antes foi apenas moldura para esse instante. E o depois era só o depois. Como sempre, mesmo sem poder falar, e só com as mãos, mangou de si mesmo. Fez a todos ao redor rirem sem que nenhum o quisesse. Quando acordou da queda, estava cercado por pessoas que não podia distinguir quem eram. Sabia que estava sendo carregado, mas não sentia nenhuma parte do corpo. Apenas tinha a intuição de ter vermelho nos olhos, sem nenhuma certeza.

O gás já está acabando. A chama azul prevê. É tiro e queda. Nessa hora não há dúvidas, pode demorar pra mais ou pra menos, mas o certo é que está próximo do fim. Assim pensa Socorro, sem querer saber o que isso significa. Só sabe e não entende que seu filho de 20 anos, recém ingresso nas forças armadas, está aposentado para o resto da vida. Pensa e repensa como apenas um nariz, que se espatifou como vidro e perdeu sua carne pela doença que já habitara silenciosa há anos o filho, tinha o poder de tornar uma pessoa outra pessoa para os olhos do mundo. Na água da piscina ainda deve ter sangue do seu sangue. O filho, aos vinte anos perdeu o nome de batismo e tornou-se Cabo Velho.

Foi assim que começaram a chamá-lo. Quem começou e o porque não dá para precisar. Nos primeiros cuidados, ao olhar a face do filho, a mãe chegou a pensar que tudo poderia voltar para o seu lugar. Porém a esperança é feita de matéria frágil. Bastou ver o filho sentado na mesa imunda do bar da esquina pagando bebida para desocupados que percebeu que não havia mais como. Quando se sai do script, o mundo não é o mesmo, a mãe pensava constantemente e temia dias eternos como aquele.

19 de set de 2009

A nada imploram tuas mãos já coisas*


Acordei. Como de costume, na mesma cama. Com meu corpo na posição de sempre a essa hora do dia. Entrando na cozinha, vi uma mulher que muito viveu. Ela tinha nas mãos um papel que acabara de dobrar. Percebi que o dobrava exatamente nos mesmos vincos que o papel já possuíra. Parece que não querendo deixar marcas de que estiveram ali mãos outras, estranhas e indesejadas. Depois, cheirava-o e guardava-o entre os seios. Parecia mergulhada em algo mais que água e mais que o próprio sonho.


Voltando à concretude da cozinha. “Comprei pão, tem café na garrafa e mamão na geladeira”. Eu seguia a conversa com um “Obrigada”. Essa mesma cena aconteceu por vários dias. Senti, em todos eles, que eu roubava algo do mundo. Tirava-lhe alguma coisa. E ela aceitava o roubo. Não apenas parava de ler sua carta – poema – história – bilhete (não sei precisar o que seja), ela parava de pensar em si, no que a levara àquele instante.

Nesse dia, acordei pensando que já era hora de deixar as lembranças adormecerem. Depois que seus ecos não existem na realidade, nada fazem, são apenas remorsos, dores, arrependimentos, faltas. Sentia, de alguma forma, que compartilhava esse sentimento com Meire. No instante em que ela abria seu papel, eu abria minha caixa de e-mails, e lia as palavras que eu procurava. Tudo já em vão.

As palavras nada diziam ao vazio que nos cobria. Enchiam apenas a folha e a tela. Falavam de coisas que não poderiam mais existir. Mesmo que se pudesse seguir suas pistas, no fim só se encontraria o mesmo e grande vazio recoberto de palavras sem forma e sabor. A emoção que um dia houve ao ler e reler transformou-se na revolta imóvel.

Palavras repletas do impossível. Imagino-a escrevendo num dia em que o sol brilhava nos vidros da janela. Ela a fitando com o olhar dos que nada mais têm a perder. E os dedos frágeis sobre o teclado, com o peso de fazer a memória. O fugidio da vida mostrando-se em seu corpo. Sabendo nesse instante diferenciar memória e vida. Pela força da finitude.

Quando leio essas palavras, postas na volátil e impessoal tela de computador, perco a coragem de imprimi-las, de a tinta no papel fazer do meu horror o mesmo horror de Meire. O medo de fazer desintegrável essas palavras que me dão tamanho, espessura e cores de uma vida que foi minha.

Sei dos limites. Reconheço-os quando olho minhas mãos. Desejo inescrupulosamente enfiá-las entre os seios de Meire e arrancar-lhe a dor. Devorá-la para não deixar vestígios. E sumir com elas. Esse sonho me mostra, por um instante, uma possibilidade de salvação. Nos instantes que sobram, percebo que nada são essas palavras. Mesmo sem tê-las na superfície em que posso vê-las, elas se esconderiam em outros lugares em que, piores que o papel e a tela, invadiriam a mim e a Meire sem nosso consentimento: pelo poder do não-se-ver e do existir.

* O título desse post é um verso de uma ode de Fernando Pessoa, como Ricardo Reis, em Odes do Livro Primeiro.

9 de set de 2009

Palavras de outro



Quando não tenho nada a dizer, o que acontece frequentemente, digo palavras de outr@s.

"Estou cansado de correr, cansado de ter que carregar a vida como se fosse uma cesta de ovos"


31 de ago de 2009

A roda nunca deixa de tocar o chão - II


Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente

Camille Claudel


Sinto iniciar-se um medo desconhecido. Daqueles de trancar a garganta e suar as mãos. Tentei inventar um personagem que o narrasse por mim. Mas me falta o traquejo de transferir minhas palavras a outro qualquer, nascido apenas pelo artifício, sem sangue lhe pulsando em veias. Não posso fazer isso enquanto sinto meus pés frenéticos tocando e não tocando o chão em um movimento que me angustia. Se esperar tudo isso passar, posso perder esse sentido que tanto me inquieta, não a deixando virar palavras.


Esquecerei. E tudo se tornará apenas palavras, talvez canções, que também serão esquecidas. Quem sabe escondidas. A memória seca, em uma hora qualquer, poderá ser regada. Agora, furto-me a viver pelo medo de me esquecer. A ânsia de não poder guardar é maior. A ingratidão da vida no tempo presente. Sem poder desvendar no instante o que os meus passos querem dizer.


É essa ausência que me angústia e me leva ao nada, ao estado de prostração em que tento prender em minhas mãos úmidas o esquecimento. Sem mais do que se possa recordar. Sem mais para se perder na vastidão dos dias acumulados. Mas nem assim seguro a lembrança. O tempo me trai. E contra ele nada posso fazer. Posso apenas tentar viver o agora que tanto temo em não recordar manhã. Eu traio o tempo.

27 de ago de 2009

Cerzindo feridas



Este é o meu primeiro e único blog. Creio que ainda nem mesmo comecei a cortar o tecido que o compõe. Acabei de tirar algumas medidas e fiz alguns moldes iniciais. Ainda um tanto quanto grosseiros. Pois não sei bem nem o comprimento nem a largura que devem ter. Costuro por intuição. É certo que tenho de trabalhar duro em cima de cada pequena peça. Cortar, costurar, descosturar, costurar outra vez. Como não fiz curso de corte e costura, é no manejo dos tecidos que vou aprendendo. Algumas peças podem ficar mal costuradas, com uma barra mal feita ou uma perna da calça maior que a outra. Mas continuo, mesmo furando de vez em quando os dedos em agulhas e alfinetes, a costurar. Sempre assim, costurando pra fora e pra dentro. Expondo cada peça em praça pública. Me cortando, me vestindo e me despindo.

24 de ago de 2009

Com a balança quebrada


Hoje é o dia de meu aniversário. Faço 24 anos. O que pra mim quer dizer muitos anos nas costas. Mas sei que isso depende do referencial. Um dia como outro qualquer, repleto de coisas a fazer e a pensar. Um marco necessário para me festejar. Gosto disso. Sou tão rotineira para mim mesma que meu aniversário significa sempre uma respiração. Umas respirações mais fundas que as outras, mas sempre uma respiração. Cada ano com sua história.

Costumo me empolgar facilmente com as coisas. E com a mesma facilidade transformo coisas pequenas em gigantes. Quem me conhece, ou lê o que escrevo, já deve ter percebido isso. Sou obcecada por pequenezas. Até aqui, tudo está dentro do script. O difícil é quando os que me rodeiam não dão a mínima pro mínimo. Ai está o meu problema. Mas hoje é meu aniversário. Nesse dia não tenho defeitos. Guardo-os para os dias dos outros.

Mas a exceção desse dia em minha vida, pelo excesso de tudo que desejo pra mim mesma, sempre me traz um cadinho de melancolia. Aquela sensação de não ter muito do que se orgulhar de ter feito. A sensação do nada ou do pouco feito. Por esse sentimento, como boa viciada em listas, também faço uma lista de promessas de aniversário, outra de desejos de aniversário. O número de itens varia de ano para ano. Nunca revelo o conteúdo dessas listas. Acho que nem pra mim mesma até chegar o próximo aniversário e eu me lembrar de reler a lista passada.

Numa balança de perdas e ganhos, neste aniversário, não teve nem muito de um nem pouco de outro. Minha balança simplesmente quebrou. Sou incapaz de fazer essa pesagem cretina. Não sinto vontade de ser nem o tipo de pessoa que vê coisas boas em tudo, e nem o seu contrário. Penso que se perde sendo dos dois jeitos. E também o equilíbrio não me faz bem. Vejo na suposta tentativa de colocar o equilíbrio como perfeição, uma das maiores falácias que já escutei. Pelo menos pra mim não funciona.

Por fim, e neste novo começo, desejo-me todas as pieguices que fazem tão bem a mim, e a quase todo mundo. Não espero muita coisa, sinto-me ocupada tentando fazer o que desejei por muito tempo.


18 de ago de 2009

A roda nunca deixa de tocar o chão

"Full circle" - Duy Huynh, 2004.


Todos os dias o mesmo som entoando minha viagem. As vozes se misturam. Os barulhos do amontoado de gente e coisas no mundo. Quase as mesmas pessoas sentadas nos bancos. As histórias, muitas vezes, só mudam de bocas. Há o assento em que costumo sentar-me. Hoje nem ele nem nenhum outro está vago. Abro a bolsa, verifico se de nada esqueci. Sempre o mesmo passo a passo. Minha forma de organizar a existência que teima em descarrilhar.


A viagem é longa. As paradas são muitas. E as pessoas são tantas mais que tudo isso. Nessa hora, nunca tenho muito a dizer às pessoas, nada mais que um leve aceno de cabeça ou um “jóia” com o polegar. E só. Enfurno meus pés no assoalho e ali permaneço até minha parada. Sem palavras. Às vezes com ouvidos.


E o suor escorre por minhas mãos. Minha boca torna-se seca. Sentar-me resolveria metade de meus problemas. Longe de ter isso, seguro-me nos ferros do assento à minha frente. Tenho por segundos alguma segurança. Bebo o restante da água que trago comigo. Coloco uma bala na boca. Forço um bocejo. Meu corpo não me obedece. Insiste em querer abandonar-me. Pouco se pensa quando a carne treme.


Falta pouco para chegar. E esforço-me para permanecer de pé. Com o ônibus lotado assim, ninguém pode me ver direito. Não se percebe o outro. Sinto corpos ao meu redor e é só. Todos eles com suas massas de carne e sangue. Tocando superfícies talhadas pelo rotineiro da vida.


Caminho para o final do ônibus. Esforço-me para alcançar o botão do sinal. Pouco de mim me responde. Meus olhos insistem em fechar-se. Desço um degrau, depois outro e mais outro. Já sentada e fora, tento respirar devagar e espaçadamente. Sinto que posso caminhar. Assim faço, movendo-me com um passo de cada vez.


A céu aberto, caminho pela noite escura, e a leve brisa que prenuncia a chuva alcança meus olhos. Por instantes me sinto como se fosse destinada a viver eternamente pegando sereno no descampado que é o dia atrás de outro dia. Consigo abrir a porta de minha casa. Lembro que amanhã será tudo novamente do mesmo jeito. Na ida e na volta.

4 de ago de 2009

Carroça de tijolos e gente

Sol a pino. Entre os automóveis que buzinam, freiam, aceleram há a minha vida dentro desta carroça. Dividida entre filhos, tijolos, cavalo. Além de muito barulho.

Lutando para passar por esse resto de concreto jogado no meio do caminho. Cavalo, não desequilibre. Não faça espetáculo com a vida alheia.

A vocês, saiam daqui. Não sou televisão para cachorro. Sou gente com tijolos. Não me olhe como quem vê um quadro surrealista. Sou gente não-tinta. Sou gente sem-filme, sem-pixel.

Tenho as rédeas de minha vida. Faço de um tudo. Construo casa. Cuido de filho. Sei ler e escrever. E vejo tudo. Creia, vejo tudo.

Vejo seu pequeno filho entre seus seios. Vejo seu olhar sem rumo. Vejo sua mão tremula. Sei que me vê sem precisar de um sol a pino para iluminar. Não pense que é humano por me ver. Vejo a você de forma igual, de meu ângulo, entre as rédeas e o içar do cavalo.

(As imagens são d'osgemêos)




1 de ago de 2009

Guardado, bem guardado

Na minha casa, no aniversário de um mês da minha irmãzinha.



Lendo e vendo algumas entrevistas com escritoras e escritores de agora e do passado, me sinto um tanto quanto retardada. A maioria, se não todas e todos, dizem ter uma memória muito boa. Dizem lembrar-se de acontecimentos e sentimentos de quando eram muito pequenos. Tipo, com um ou dois anos de idade. Pra minha vergonha, minha lembrança mais antiga é de quando eu já tinha 4 anos de idade, quase 5. Uma anciã na matéria de lembranças! Nessa mesma idade, Clarice Lispector lia e escrevia, e eu, nem memória tinha.


Ao longo do tempo adquiri a habilidade de esquecer. Quase todo mundo tem essa habilidade, grande coisa! Os motivos, não vale a pena lembrá-los. Habilidade necessária, diga-se de passagem. A primeira coisa que me lembro, voltando no tempo, é de quando minha irmã nasceu. Minha memória começa com ela. Na verdade, tenho a impressão de ter na memória coisas mais antigas, mas são apenas vultos. Nitidez só quando fui buscar minha irmã na maternidade.


Quando cheguei em casa, só queria estar com ela durante todo tempo. Minha boneca. Nunca fui afeita a brincar de casinha ou de boneca. Mas com minha irmã era diferente. Era parte de mim. Muito cedo senti isso. Para o bem e para o mal dela.


No aniversário de um mês de minha irmã fiquei o dia inteiro ocupada preparando a festa. Uma agitação só, imaginem! Eu e minha mãe preparamos bolo de laranja de caixinha, gelatina de limão e suco de laranja tang. Nunca participei de outra festa que me desse tanta alegria. Os convidados eram eu, minha mãe e a aniversariante. Foi uma festa inesquecível.


Pena que vocês não estavam lá. Teriam se divertido comigo, fazendo carinho na cabeça já repleta de cabelos de minha doce irmã. Sei que também ia curtir segurar nas já fortes mãos dessa criaturinha. Sem falar no melhor: poderiam tê-la, se eu tivesse de bom humor, em seus braços.


Minhas memórias começam por aqui. Apesar de serem memórias de uma criança sem muita genialidade e sem muita diferença das tantas outras, são as lembranças que tenho o prazer de guardar bem guardadas em um lugar que a maldição do tempo não chega.



21 de jul de 2009

Pois pronto

"Abandono" - Oswaldo Goeldi, 1937



Ela, com a cabeça baixa, conhece sua nova cama. O medo de que as palavras saiam de sua boca a acompanha. Olha para seu neto que lhe inquire fatos que ela não quer rememorar, e as lágrimas correm. Sente-se humilhada por sua história. E contá-la é revivê-la. Mas se não contar não há grito.


O abraço oportuno de sua neta a livra, por alguns instantes, das palavras que lhe coçam a garganta umedecida pelo choro engolido. No desvencilhar das pontas dos dedos, os olhos dos outros e a iminência das perguntas a fazem exclamar: Não me peçam para narrar a dor.


Mas como no mundo se está cercado sem constrangimentos da dor dos outros, eu conto. Pois pronto. Se posso contar a vocês agora, é por que tudo já se findou. E como já disse alguém, mas de outra maneira, querendo dizer a mesma coisa: se acabou, é por que deu certo.


Digo todas essas coisas tentando convencer-me de que tudo acabou. Como se a memória não fosse tão real quanto os pés no chão. O despedaço de minha vida até aqui residiu na seqüência de esperanças roídas. De chegadas nunca ocorridas. O esperar com esperanças dos que não movem os antebraços de encostos.


Pois pronto. Ela me deixou sem nada nos armários nem nas latas. Foi-se com aquele outro. Sem nem ao menos olhar pela fechadura ou escutar pela porta minha respiração. Foi-se e eu fiquei. Não sei o porquê. Talvez ele não exista. Talvez seja apenas o desejo de ir e de deixar.


As palavras pra fora me calam tão fundo como as que permanecem. O fantasma do abandono novamente me faz tremer. O que depositou vida dentro de mim partiu. Assim também nosso fruto se foi. Foram para junto de outros que não eu. Antes a morte os tivesse levado. Foram com seus próprios pés. E eu fiquei com os meus. Em meus devaneios vejo tudo de trás para frente e sorrio com a chegada-partida.


Agora nada disso importa. Estou com vocês e tudo será novo. Trouxe minha televisão e meu colchão. Perto dos que têm meu sangue e que me têm cuidado. Obrigada pelas palavras, braços e mãos estendidas. E pelos ouvidos abertos.



19 de jul de 2009

Faca de dois gumes



Pessoas que gostam de dividir seus sentimentos, anseios, angustias consigo mesmas, às vezes utilizam a escrita como fuga da realidade inevitável. Mas, com o passar do tempo, toda a vivência prensada no papel torna-se memória do que, quase sempre, se quer esquecer.

17 de jul de 2009

O fabuloso destino de Isaura e Juarez (e eu)

"O beijo" - Gustav Klimt, 1907-1908




"Tempos difíceis para os sonhadores"

O fabuloso destino de Amélie Poulain

Eu quero um amor como o de Isaura e Juarez. Banhos tomados juntos. Mãos dadas. Palavras e ouvidos. Sentados lado a lado. Um no fogão e outro na pia. Os beijos cotidianos, os ocasionais e todos os outros. Um lavando os cabelos do outro. Tirando-lhes a espuma do pensamento.



Mesmo com as brigas. Sabiamente freiadas para não se sentir nem ao menos o cheiro da ausência do outro. Queria ser Juarez quando Isaura penteava seus cabelos molhados. Queria ser Isaura quando Juarez passava as mãos lentamente por suas sobrancelhas desgrenhadas.



Vejo-os desde minha pequenice. O ralear e o esbranquiçar de seus cabelos, suas mãos entrelaçadas enrugando-se e tornando-se uma só com o juntar das dobras. Ao parar de enxergá-los, os imaginava em diferentes tons, espaços e tempos. Sempre Juarez e Isaura. Eu sempre querendo sê-los.





14 de jul de 2009

No vento


"Juturna" - Esao Andrews, 2005


Caminho na urdidura da vida.

A vida talhando a cada instante em que apisoteio.

Tudo cheio.

Buraco mesmo só na beirada onde me esgueiro.

Ainda atordoada pelo vento forte.

Não sei o caminho.

Imagino que chegarei a algum campo aberto.

Terreno para viver.

O tempo: um amontoado de dias-lembranças entre as rachaduras de minha pele.

O vento castiga quem contra ele vai.

Mas, quando quero, sou fincada como raiz velha.


(Não tô querendo me desculpar, mas esses dias têm sido pesados de carregar. Dias bons, sim. Mas que me consomem. A única coisa que consegui tirar da cortola foi esse arremedo de escrita.)


11 de jul de 2009

Pedra morta

"Melancolia" - Edvard Munch



O que são as pregas em meu rosto. Essa pergunta me leva a tempos e espaços que só consigo precisar com o auxilio do presente e do fardo de minha memória esgarçada. De nada adianta lavar o rosto. Secá-lo com uma toalha esfregando com força. As dobras não abandonam. Impregnaram-se com força e para ficar.


Nunca antes havia pensado que as conseqüências pelo que se fez fossem tão irreversíveis. Achava que para tudo se dava um jeito. Mas tive de encarar o fato de que quando se recebe as conseqüências e não há mais nada a fazer, só resta agüentar o peso, seja esbravejando ou calando-se.




Obs: Desculpem pelo post meio deprê. Prometo que o próximo terá cheiro de alegria!


8 de jul de 2009

Dica de filmes: Minha vida sem mim (2003), A vida secreta das palavras (2005) e Fatal (2008), todos de Isabel Coixet

"A maja vestida", de Goya



Conheci o trabalho da diretora Isabel Coixet primeiro através do filme A vida secreta das palavras (2005), por indicação. Me apaixonei de cara. Desde então, tenho-a como minha diretora favorita. Ao lado de minha escritora favorita, Clarice Lispector. Ver um de seus filmes é como olhar para o que há de mais sensível e bonito, como também me sinto quando leio Clarice (viu como sou intima dela!!!). Elas me coincidem. Não que eu seja como elas. Mas eu gostaria de ter feito cada linha escrita e dirigida por elas.


Até agora vi três filmes de Coixet – Minha vida sem mim (2003), A vida secreta das palavras (2005) e Fatal (2008) – e quero ver todos os outros que ela dirigiu: ¡Hay Motivo! (2004), Paris, Eu te Amo (2006) e Invisibles (2007). E sugiro que todo mundo, de verdade, possa fazer o mesmo. Todas as cenas são envoltas de uma ternura pouco vista e buscada por outros diretor@s. De uma forma bem diferente, lembro de outro diretor que admiro pra cacete. Ingmar Bergman. Filmes como o que eles fazem me reanimam a existência.


Gosto de ver histórias e pessoas que conseguem ter uma vida com uma tristeza feliz, ou uma felicidade triste, não sei bem o que mais se aplica. E não estou fazendo um jogo de palavras vazio. Eu não consigo me sentir feliz sem, ao mesmo tempo, não sentir que tenho muito a perder. E essa é a atmosfera dos filmes de Isabel Coixet. Mote que perpassa pelo menos os três filmes citados. Suas personagens são assustadoramente humanas e reais. Muitas vezes, a verdade crua choca. Mas em seus filmes, tudo se cerca de uma leveza que nos faz esquecer que a dor é algo ruim. O que pode até nos levar a acreditar que a dor carrega alguma beleza.


Me recuso a ver beleza na dor. Mas como sentir-se feliz sem sua iminência? Talvez de vários modos. Talvez acreditando que focar-se por instantes em algo alegre possa nos fazer assim também. E esses instantes de alegria também são contemplados nas cenas dos filmes de Coixet. Não vou citar aqui personagens ou cenas especificas, mas apenas me detenho na atmosfera que envolve sua obra, o que, pra mim, é que de melhor se pode sentir.


Pra mim, de nada adiantaria contar aqui o enredo dos roteiros. Pouco diria sobre a experiência de ver cada um desses filmes. Me senti tão pessoalmente tocada por cada uma dessas narrativas que me trairia se as reduzisse a uma seqüência de ações. Acho que isso é medo de eu sentir que tenho uma existência por demais pequena. E por demais nua.


"A maja nua", de Goya


4 de jul de 2009

A dança

"A dança" - Henri Matisse

Para dona Júlia

Quando fico imersa em mim mesma. Quando o mundo a minha volta me rejeita. Quando todos têm seus pares e grupos e eu sobro. O que mais desejo é sentar-me em frente a um computador. A uma tela em branco do Word, mais precisamente. Ou a uma folha de papel, em todo caso. Mas nem sempre isso é possível, ou recomendado. A não ser que se queira ser visto como alguma coisa ruim, ou sei lá o que. A despeito desse desejo de solidão pela fuga da solidão, num dia desses, fui inesperadamente surpreendida pela aleatoriedade das coisas.

Eu, mais três velhas, de 65, 70 e 88 anos. Juntas para visitar outra velha de 86 anos. Eu, 21 anos. No caminho, tomada pela leseira da comida ainda indigesta, tive de abrandar meu passo. As passadas eram curtas e lentas. Cada uma carregando um transcurso de muitos dias. Houve algumas palavras. Que não me recordo quais foram. Talvez algo sobre a importância de se visitar aos que fazem e fizeram parte da vida. A obrigação de espiar a vida alheia como forma de mostrar-se preocupado com o outro.

Já lá, o desajuste de idades não se fez desajuste de compreensão. Nós nos entendíamos no olhar. Como que tentando desvendar umas as outras. E assim, sempre falando, ficamos mais de duas horas. Eu mesma, nem recordo se falei alguma coisa, acho que não, mas conversei com todas elas, de alguma forma.

Vozes sobre as famílias, filhos mortos. Maridos ainda vivos. Um gato passeando pela casa, repleta de lembranças: fotos, canecas, taças, lembrancinhas de escola trazidas pelos netos e bisnetos. O colesterol. O filho drogado. O casamento desfeito de outro filho. E sua volta para casa. A medição diária da pressão. O artesanato. A visita dos filhos e filhas. A vida corrida dos outros. E a casa delas, já parada pelo tempo, torna-se parada para quando se quer parar.

Eu adentrando a casa. Descobrindo os espaços e suas histórias. O choro. A gargalhada. Uma delas cai no cochilo, sob o efeito de remédios muito fortes que toma para continuar a respirar. Outra já não escuta muito bem e ignora-se até de si mesma. Uma resmunga sem parar. A vida em excesso, às vezes, faz isso. O tempo, um presente e um castigo.

Coloquei-me na imaginação em um corpo velho, cheio de dobras e histórias. Figurei momentos. Pensei-me diferente delas em meus afazeres outros. Em outras roupas. Com outras coisas a se contar. Menos ou nenhum filho. Talvez mais gatos. E desejei poder ter ainda planos quando chegar a essa altura da vida.

Nenhuma delas, por suas palavras, desejava alguma coisa além de mais algum tempo sobre o já pisado mundo. Eu não me atrevi a perguntar-lhes o porquê. Se tudo que cercava estava tão cheio de pó e formado apenas de memórias, porque continuar, se tudo já se viveu? No momento, não pensei em nada que pudesse responder a essa questão. Mas hoje, passado algum tempo, penso que elas desejavam continuar a pisar no chão pelo simples fato de que contar o que se viveu pode ser tão prazeroso quanto se viver. E não é que isso pode ser verdade!



2 de jul de 2009

Sem os barulhos do mundo



Sem os barulhos do mundo.
De dentro de sua jaula.
Que não a permite estar com ela ou comigo.
Jaula sua ou jaula minha?
Não há qualquer movimento para fora de si.
Sempre encasulada.
Medo do que aparece apenas no escuro.
Cerca-se do mundo até as pálpebras se fecharem definitivamente.
É medo de si. Do seu profundo.


Cheguei a escutar o barulho das jaulas se chocando.
Um barulho de metal estridente e agoniante.
Nenhuma jaula foi quebrada.
Ou mesmo amassada.
Apenas muito barulho por nada.
Cada um com suas certezas.


O que tenho de meu, talvez o que apenas no escuro apareça.
Como vaga-lumes fosforescentes.


Meu interior, um liquidificador que trabalha enquanto eu vivo.





30 de jun de 2009

Murro em ponta de faca

Red wall - Esao Andrews


o barro

toma a forma

que você quiser

você nem sabe

estar fazendo apenas

o que o barro quer

Paulo Leminski

“o que o barro quer”


Viver uma impossibilidade já decretada é minha forma de resistir. Confirmo o que foi dito: o inferno são os outros. Os olhares que me rodeiam pouco valem. Ouviu falar em entra por um ouvido e sai pelo outro? Meu lema de vida. Eu não quero ser engraçada. Pelo contrário. Pense apenas que minha posição é tão distante da sua que é incapaz de compreendê-la. Cuidado! O que lhe soa como falta de juízo de minha parte pode ser o seu juízo moldado falando. Sei que deve estar pensando, mas por que escolher sempre o caminho com mais dificuldades? Talvez seja o mais fácil para mim. O que eu consigo percorrer sem me trair.


Esta casa com goteiras, com buracos, é o lugar que habito. A vizinhança me ignora por completo. Olham-me torto, como se eu carregasse uma ferida grande demais que lhes dessem repugnância de encarar. Minha mãe me diz sempre que pode: Pensa que as pessoas têm de aceitar você como você é. Ninguém é obrigado não. Não importa o quando eu lhe diga sobre preconceito. Ela sempre me responde: Preconceito nada. Você e essa mania de querer que os outros te engulam. Tenho dó de você filha. Só dá murro em ponta de faca.


Mas de nada adianta preencher a tela vazia com meus pensamentos. Lá fora a conversa é outra. É só colocar a cara pra fora da janela que posso perceber que minhas palavras não fazem sentido. O que eu devia mesmo era parar de preencher esse papel com essa personagem que me persegue. E que fatidicamente só é feita de papel e tinta. Moldada pela seqüência de palavras e espaços em branco. E se eu for caminhar pelo mundo, creio também que de pouco ou nada adiantaria. Só seria mais uma anônima esmagada no vagão do metro, no corredor do ônibus, na cadeira do restaurante. Apenas ocupando centímetros do espaço do mundo.


Para habitar nesse lugar, que é só meu quando as janelas e as portas estão cerradas, tive de dar adeus às possibilidades possíveis. Agora sou apenas eu. Sei que apenas as palavras vestem a nudez sem sentido da tela em branco e de minha mente em turbilhão. De que é feita a vida, senão de um bocado delas juntas com algum sentido? Podem responder que a vida é feita de muitas outras coisas. Respondo-lhes que para poucos a vida é tão generosa. No mais, pelo menos a minha, é feita dia a dia na tela. Imaginando e limando, já que ai fora só se pode viver dentro das possibilidades possíveis.


Acordo todos os dias antes do sol, fico oca por minhas horas intermináveis de trabalho, e volto para casa quando o sol já se pôs. Não faço nada demais. São muitos que percorrem o mesmo trajeto. Como se esse fosse o único possível. Ouvi ontem no ônibus que a gente tem de lutar mesmo, e ainda ser feliz. Num tem outro jeito. Tem de trabalhar. A nenhuma palavra me oponho. E não sou especial por isso. Também escutei no metro um dia desses atrás: para quem não quer trabalhar na rua tem muito espaço. Num precisa reclamar, no mundo há lugar pra todo mundo. A isso também não posso discordar. Se não quer uma vida de sapatos. Você pode ter uma vida sem sapatos. Pode-se escolher: vida vestida ou vida nua. É simples. Para tudo há escolha. Caso se esteja com fome e sem como comprar o de comer, e não haja ninguém que lhe dê comida, ainda há a escolha de roubar. Caso se esteja com fome e se acredite que roubar é um pecado, ainda há a escolha de morrer de fome, em nome da santidade e do temor a Deus, certo dia escutei essas palavras de uma mulher na rua. Não há como discordar dessas palavras: sempre há como escolher.


Enquanto trabalho, nas quatro horas com duas de descanso para depois pegar no batente mais quatro horas, pouco me lembro de mim. Para dizer a verdade, num lembro nada mesmo. É só na travessia que escutando as conversas alheias que posso pensar um pouquinho. Entre uma conversa e outra que escuto.


Mas a quem se pode culpar? Acho que só a mim mesma. Mas mesmo meu corpo marcado pelas andanças não diz nada. Pouco ou mesmo nada dizem minhas palavras. Prossegue-se mesmo assim. Sem certezas. Sobre os próprios pés. Ninguém escolhe viver na contramão. Talvez se escolha a liberdade. Para isso, caminha-se até que as forças cessem e não haja mais nada. Não me importo de ver meu sangue escorrer pelas mãos, desde que eu sinta que eu derramei cada gota. E, no final, de um jeito ou de outro, todo mundo faz isso.