30 de jun de 2009

Murro em ponta de faca

Red wall - Esao Andrews


o barro

toma a forma

que você quiser

você nem sabe

estar fazendo apenas

o que o barro quer

Paulo Leminski

“o que o barro quer”


Viver uma impossibilidade já decretada é minha forma de resistir. Confirmo o que foi dito: o inferno são os outros. Os olhares que me rodeiam pouco valem. Ouviu falar em entra por um ouvido e sai pelo outro? Meu lema de vida. Eu não quero ser engraçada. Pelo contrário. Pense apenas que minha posição é tão distante da sua que é incapaz de compreendê-la. Cuidado! O que lhe soa como falta de juízo de minha parte pode ser o seu juízo moldado falando. Sei que deve estar pensando, mas por que escolher sempre o caminho com mais dificuldades? Talvez seja o mais fácil para mim. O que eu consigo percorrer sem me trair.


Esta casa com goteiras, com buracos, é o lugar que habito. A vizinhança me ignora por completo. Olham-me torto, como se eu carregasse uma ferida grande demais que lhes dessem repugnância de encarar. Minha mãe me diz sempre que pode: Pensa que as pessoas têm de aceitar você como você é. Ninguém é obrigado não. Não importa o quando eu lhe diga sobre preconceito. Ela sempre me responde: Preconceito nada. Você e essa mania de querer que os outros te engulam. Tenho dó de você filha. Só dá murro em ponta de faca.


Mas de nada adianta preencher a tela vazia com meus pensamentos. Lá fora a conversa é outra. É só colocar a cara pra fora da janela que posso perceber que minhas palavras não fazem sentido. O que eu devia mesmo era parar de preencher esse papel com essa personagem que me persegue. E que fatidicamente só é feita de papel e tinta. Moldada pela seqüência de palavras e espaços em branco. E se eu for caminhar pelo mundo, creio também que de pouco ou nada adiantaria. Só seria mais uma anônima esmagada no vagão do metro, no corredor do ônibus, na cadeira do restaurante. Apenas ocupando centímetros do espaço do mundo.


Para habitar nesse lugar, que é só meu quando as janelas e as portas estão cerradas, tive de dar adeus às possibilidades possíveis. Agora sou apenas eu. Sei que apenas as palavras vestem a nudez sem sentido da tela em branco e de minha mente em turbilhão. De que é feita a vida, senão de um bocado delas juntas com algum sentido? Podem responder que a vida é feita de muitas outras coisas. Respondo-lhes que para poucos a vida é tão generosa. No mais, pelo menos a minha, é feita dia a dia na tela. Imaginando e limando, já que ai fora só se pode viver dentro das possibilidades possíveis.


Acordo todos os dias antes do sol, fico oca por minhas horas intermináveis de trabalho, e volto para casa quando o sol já se pôs. Não faço nada demais. São muitos que percorrem o mesmo trajeto. Como se esse fosse o único possível. Ouvi ontem no ônibus que a gente tem de lutar mesmo, e ainda ser feliz. Num tem outro jeito. Tem de trabalhar. A nenhuma palavra me oponho. E não sou especial por isso. Também escutei no metro um dia desses atrás: para quem não quer trabalhar na rua tem muito espaço. Num precisa reclamar, no mundo há lugar pra todo mundo. A isso também não posso discordar. Se não quer uma vida de sapatos. Você pode ter uma vida sem sapatos. Pode-se escolher: vida vestida ou vida nua. É simples. Para tudo há escolha. Caso se esteja com fome e sem como comprar o de comer, e não haja ninguém que lhe dê comida, ainda há a escolha de roubar. Caso se esteja com fome e se acredite que roubar é um pecado, ainda há a escolha de morrer de fome, em nome da santidade e do temor a Deus, certo dia escutei essas palavras de uma mulher na rua. Não há como discordar dessas palavras: sempre há como escolher.


Enquanto trabalho, nas quatro horas com duas de descanso para depois pegar no batente mais quatro horas, pouco me lembro de mim. Para dizer a verdade, num lembro nada mesmo. É só na travessia que escutando as conversas alheias que posso pensar um pouquinho. Entre uma conversa e outra que escuto.


Mas a quem se pode culpar? Acho que só a mim mesma. Mas mesmo meu corpo marcado pelas andanças não diz nada. Pouco ou mesmo nada dizem minhas palavras. Prossegue-se mesmo assim. Sem certezas. Sobre os próprios pés. Ninguém escolhe viver na contramão. Talvez se escolha a liberdade. Para isso, caminha-se até que as forças cessem e não haja mais nada. Não me importo de ver meu sangue escorrer pelas mãos, desde que eu sinta que eu derramei cada gota. E, no final, de um jeito ou de outro, todo mundo faz isso.


28 de jun de 2009

FILME: Budapeste


Direção: Walter Carvalho

Roteiro: Rita Buzzar e Chico Buarque

Fotografia: Lula Carvalho

País: Brasil – Hungria – Portugal

Ano: 2009

Duração: 113 minutos



Assisti ao filme Budapeste, de Walter Carvalho. Com Leonardo Medeiros, Giovanna Antonelli e Gabriela Hámori. Baseado no romance homônimo de Chico Buarque, de 2005, o filme narra a história de um ghost-writer que se divide entre a família no Brasil, onde é José Costa, e um romance em Budapeste, onde é Kozta Zsosé


No Brasil, José Costa (Leonardo Medeiros) tem uma empresa que oferece serviços de ghost-writer. Ele mesmo, autor de vários livros que não carregam seu nome próprio. O filme inteiro transpira metalinguagem. O abandono da língua materna e a busca por outra língua, como forma de ter outra identidade, ou fugir de todas as identidades, é uma das saídas que José Costa vislumbra. Na contramão dos que dizem que as pessoas escrevem e publicam vertiginosamente apenas pelo dinheiro, o filme mostra que há sim esse dado, mas há algo a mais. Todavia, creio que o que falta a José Costa é que os outros, todo o inferno que são os outros, vejam um pouco dele em todas as linhas escritas.


Ele percebe a sua falta de identidade quando vê que sua mulher (Giovanna Antonelli) se deslumbra com um livro que ele escreveu, mas que não assinou como seu, e que se encanta, através do livro, pelo homem que o assina. Sua mulher chega a provocá-lo dizendo que ele nunca poderia ter escrito aquelas belas palavras. E o incita dizendo que ele diz escrever tanto e ela nunca viu nenhum livro dele publicado. É importante observar a profissão de Vanda (Giovanna Antonelli), ela é jornalista que, ao contrário de seu marido, busca o reconhecimento. Vanda é retratada como uma mulher idiota que só se importa com as aparências, ao contrário de seu inteligente marido, tão despretensioso!!! Fiquei irritada com a personagem de Giovanna Antonelli. Não por ser uma mulher em um filme, mas por conta desse estereótipo recorrente de mulheres que buscam em seus parceiros prestígio e se deslumbram com as palavras de um poeta que as enlaçam sem muitas dificuldades.


Ainda bem que não pára por ai, como contraponto à Vanda, tem-se Kriska (Gabriela Hámori), que se torna professora de húngaro de José Costa, que mora com seu filho e que nos é apresentada como uma mulher sem preconceitos que, ao contrário de Vanda, é ela quem encanta a José Costa com sua personalidade. Assim, Kriska é a responsável por ensinar a José Costa sua língua, ela é a dona das palavras que Costa tenta possuir. Mas como nem tudo não são flores, ao final do filme ela fica grávida (pretensamente de Costa, pois ela tem outros parceiros) e, como Vanda, se deslumbra com as palavras de Costa, ao ler o romance Budapeste, que ele afirma não ter escrito. Nesse momento, quando Costa chega ao aeroporto de Budapeste, é recebido com pompa e Chico Buarque lhe pede um autógrafo, fechando o cerco de quem escreveu o que ?.


O encontro do protagonista, José Costa, com a estátua do Escritor Anônimo, em Budapeste, é um dos momentos mais tensos do filme. Ouvindo a explicação do guia de turismo sobre a função desse escritor, José Costa entende-se, mas não resignasse ao fato de ser um homem sem rosto. Se ele chega a acreditar que o que está entre as capas do livro é o que realmente importa, a despeito de quem redigiu as palavras, tudo cai por terra no momento em que não ser visto como autor do livro se transforma em não ser visto como autor de sua própria história, na vida real.


Assim, vida e obra se misturam. Tornam-se um só. A vida de José Costa tinha sido até então a busca pela separação dessas entidades – vida e obra. Mas ele descobre que ser no mundo não é apenas viver um dia atrás do outro trazendo dinheiro para casa e transando com sua mulher. Ele vivencia que ser no mundo – para o bem e para o mal – é mostrar que se é, e não necessariamente ser o que se mostra. Se essa constatação é amedrontadora? Depende. Há quem acredite que tudo é só discurso. Há quem acredite que tudo é só concretude. Há quem acredite nas duas coisas, juntas e separadas.

25 de jun de 2009

King of Pop is dead (1958-2009)




Não dá pra ficar impassível diante da morte de um dos ícones do século passado! Mas, c'est la vie. E para quem, como eu, vai morrer sem realizar o sonho de ver o Michael Jackson ao vivo, passeiem pelo you tube!

Contando passos


Partir c'est mourrir un peu

A porta já está trancada com duas voltas de chave. O agora apenas um espaço para preencher. Bem ao fundo, escuto uma canção que não sei cantar, que me é ao mesmo tempo familiar e longínqua. Talvez tudo me pareça assim: familiar e longínquo. Quando me forço a lembrar do que fui atacado, tudo me parece nunca ter existido. Aos meus olhos tudo tem aparência de criado por uma pessoa que não eu. Ou mesmo tudo ter sido imaginado em um só movimento fora e dentro de mim. Depois desses dias pesados, não consigo pensar em linha reta. Olho para os meus pés e os vejo como que de bonecos, a despeito de meu corpo de células humanas. E assim caminho dentro de mim.

O fato é que agora só sou eu aqui. Deixei a todos. Consigo lembrar-me da primeira vez que o vi. Passando em frente de minha sala. Éramos um pouco mais verdes do que somos. Pesávamos menos no mundo. Quando estava com sua bermuda surrada de calçada me aproximei de teu corpo. Quente como o meu. Menos hesitante. As conversas eram leves e a brisa encobria nossos rostos, movimentando nossos cabelos.

Sei que deve estar a céu aberto. Envolvido apenas pelas paredes dos outros e livre de suas próprias, recém-demolidas. Pela janela da sala avisto uma estrada para outra cidade repleta de automóveis voltando para as garagens depois de um dia de trabalho. Voltando ao mesmo ponto de onde partiram quando o sol ainda não se havia posto. Voltar é para os fortes que concluem a ida e ainda têm forças para realizar o retorno. Aos que as forças os abandonam resta o descanso da ida tornada chegada.

Ao entrar por inteiro no quarto, vejo seu rosto aberto naquele dia de amenidades que foram responsáveis por nossa alegria. O mar ao fundo, coadjuvante e paisagem de nós, diz a quem o vê que ali jaz alguém em graça. O sal invade-me a boca molhado. O que me dói ainda não descobri. A médica disse que meu estômago e intestinos estão desarranjados. O que ela não sabe é que me desarranjei por inteiro. Mas chega de consultórios, sou-me ótimo médico. Teorizo-me e medico-me. Vejo os indícios, os sintomas, formulo a doença – com causa e conseqüência – e alimento-a. Minha forma de resistir. De mostrar que eu sou meu próprio mal.

Na cama o velho lençol macio de algodão. O único que gostávamos de estar sobre. Sobre ele, um sobre o outro. Sem participar do resto do mundo. Fazendo-nos apenas ali. Não querendo estar em nenhum outro lugar. Para que só ao final viesse o carinho de que mais gosto: os beijos de te amo. O antes apenas preparando esse instante que não me pertence mais. É de outro. É de todos os outros a céu aberto.

Sem sentir por inteiro o chão frio, atravesso. Deparo-me com o resto de biscoito e café na pia. Jogados sem atenção. Sem importância. Como fez isso se já sabia ser o último? Da mesma forma que dormira ao meu lado sem me tocar. Sem ter a dignidade de ir para o sofá fazer-se gente. Com minha pouca força tive de ir. Para nunca mais voltar. Tive de dar passos sabendo que a mim apenas a ida pertencia.

De nada mais me vale gritar. Não serei escutado. Gritar para mim mesmo, grito em palavras no papel. Recuso-me a tocar os pés do chão, a voltar. Ficarei aqui até nada mais existir. Até que me desfaça e me torne um boneco. Tocar o chão me obriga a dar passos. Nem que seja somente nesse quadrado suspenso no mundo. E dar passos me obriga a ir para depois me sentir obrigado a voltar. Chega! Ele partiu sem querer mais voltar. Já não vejo seus pés pela fresta da porta.

De nada adianta correr atrás dele. Apenas em meus sonhos eu fujo em disparada como se a dor não fosse algo que carrego comigo, mas algo que eu posso deixar em algum canto e continuar correndo desesperadamente.

22 de jun de 2009

Alinhavando para costurar

Minha avó nasceu em terra cercada de mar sem nunca tê-lo visto. Por que não a apresentei o que pra mim é apenas água sobre água? Minha avó morreu em asfalto cercado de lojas de sapatos sem nunca ter tido um que a deixasse confortável. Por que não lhe comprei o que para mim é apenas um sapato dentro de uma caixa?

Antes de tudo, ela recusava-se a usar sapatos. Nunca havia compreendido o porquê de ela não gostar de usar sapatos. Sempre preferiu às chinelas Havaianas. Em minha cabeça de adolescente pensava: como essa velha pode ser tão burra! Será que ela não percebe o que os escravos perceberam há não sei quantos anos por não o possuírem: sapatos nos tornam civilizados; as pessoas nos olham e reconhecem em nos a dignidade; as pessoas não nos confundem com gente tão pobre! Eu tinha vergonha de seus pequenos pés em chinelas Havaianas gastas por seu andar incessante. A presença de seus pés dizia a todos que eu era pobre, de uma família pobre. E para mim tudo que era pobre não era digno de respeito. Aprendi isso com os clássicos da literatura. Aprendi que eu nada valia. Quando li O cortiço e O mulato, ambos de Aluísio Azevedo, aprendi que se si é pobre e se tem a cor preta em qualquer lugar do corpo estar-se fadado ao fracasso, ao abuso, à marginalidade. Mesmo que se tente o contrário. Eu tive a sorte de não ter nada de preto. Já me bastava a pobreza inscrita nos pés de minha avó. Mas sempre tentei fugir do estigma, vestia minha melhor roupa, meu melhor sapato. Sempre o melhor que eu tinha, e tentava compensar meu descompasso na exterioridade com minha elevação intelectual. Li quase toda a literatura da biblioteca de minha escola e da biblioteca municipal. Sabia muita coisa de cor e salteado. Quanto às disciplinas escolares, nunca aceitava um nove de média. Aprendi que os ricos são inteligentes e citam Baudelaire em bailes. Apesar de eu não ir a bailes, recitava As flores do mal no jantar de minha casa, onde todos me achavam louca! E eu lhes dizia: a cultura não atinge a todas as classes sociais. Excuse-me!

Busquei ser sempre diferente dos meus de sangue. Criei ódio pelo trabalho braçal. Aprendi que ser rico era trabalhar em profissões que elevam a alma. E não apenas enchem o bucho de comida ou deixam limpos casas, roupas, sapatos, chinelos. Essas são destinadas a gente pobre, tudo que eu nunca quis ser. Assim como me afastei dos afazeres domésticos, ao som dos gritos de indignação de minha mãe, fugi das brincadeiras de rua para não me misturar com aqueles vizinhos. Detinha-me a habitar meu quarto, composto de uma cama, uma cômoda onde guardava minhas roupas, uma mesa pequena, uma cadeira, e uma prateleira de tijolos e ripas de madeirite onde eu colocava meus cadernos e os poucos livros que eu tinha. Nesse espaço eu criava meu mundo. Via ora e outra aqueles pés em chinelas pela fresta da porta perguntando se eu não queria um chá ou um leite. Eu sempre queria.

Certa vez, quando eu passava em frente a uma banca de revista, li na capa de uma revista que natação era o melhor esporte a se praticar, pois trabalhava todas as partes do corpo. Na minha escola não havia piscina. Na educação física éramos obrigados a correr em volta de um quadrado envolto com arame a que chamavam de quadra. De tanto insistir a minha mãe e a minha avó que eu desejava fazer natação, elas deram um jeito e lá me colocaram. Minha avó me levava à aula, que acontecia duas vezes por semana bem no inicio da tarde. E lá íamos. Ela sempre com suas chinelas Havaianas. Eu não tinha coragem de dizer a ela que tinha vergonha de ela me levar desse jeito. Fiz natação por cinco anos. Adorava nadar. Enquanto eu nadava minha avó me observava. Ela tinha orgulho de me ver nadando. Eu não entendia o porquê. Com o passar de minha idade, eu já com quinze anos, não tinha mais vergonha dos pés da minha avó. Tinha orgulho de ela me acompanhar na natação, mesmo já não sendo mais necessário, pois eu já era bem crescidinha. Eu aprendi que era eu que precisava dos olhos dela me olhando nadar. E dizia isso para ela. Mesmo ela sem entender isso muito, ia comigo. Eu acenava da piscina várias vezes e ela retribuía com suas mãos de costureira.

Não sei exatamente quando perdi a vergonha dos pés de minha avó. Não sei quando perdi a vergonha de ser pobre. Minha mãe me fala que eu perdi a vergonha de ser pobre quando eu já não era mais tão pobre. Eu não sabia como lá em casa, apesar de sermos pobres – filhos de uma caixa de supermercado e netos de uma costureira – todos nós fizemos universidade pública e driblamos as dificuldades financeiras. E não sei exatamente quando descobri que por virmos daquelas mulheres é que tínhamos nos tornado o que éramos. Netos de uma costureira abandonada pelo marido ainda grávida à época da construção de Brasília e que teve de costurar uma roupa atrás da outra para que sua filha vingasse na vida. Filhos de uma caixa de supermercado abandonada pelo marido quando estava grávida de seu terceiro filho e com as duas primeiras com 2 e 4 anos de idade que trabalhava o dia todo e à noite ainda ia ajudar seus filhos com a lição de casa, brincar com eles e acarinhá-los .

Logo quando eu entrei para a universidade, para o curso de Letras Português, eu acreditava em todos os que eu tinha lido, de Padre Antonio Vieira a Guimarães Rosa. E por incrível que pareça, foi quando eu me sentia um desses escritores, cursando Letras na capital de meu país, sentada na cadeira de uma universidade pública, pisando no chão pisado em sua maioria por gente rica, inteligente e bonita, que eu vi que quase todos os autores que eu li mentiram para mim. Meu ângulo obtuso formado por eles só me afastaram de mim. Fizeram-me eu me sentir mal e em busca de ser alguém que eu pensava ser o melhor: rico. Por que me disseram que o pobre é um ser que só trabalha e não pensa! Até Guimarães me disse que ser pobre era ser um idiota que fica num vilarejo encoberto pela malaria por pura teimosia, sendo que os doutores o avisaram! Mas hoje eu sei que eles não sabiam de nada! Quem sabia eram os pés de minha avó.

Vó, ainda bem que eu nunca lhe dei sapatos, mesmo que confortáveis. Mas perdoa-me por não ter lhe levado para ver o mar.

14 de jun de 2009

Calça de veludo ou bunda de fora

Tudo ou nada. A patroa me disse quando eu ainda posicionava o telefone em meu ouvido. Escutei nitidamente. Sem interferências. Barulhos entre a boca e a orelha. O som ecoou tão arrebatadoramente que mal pude me concentrar no resto da conversa. Lembrei de um ditado. Ou é calça de veludo ou bunda de fora.

Agora, submersa nos barulhos do mundo, vejo diversas formatos e cores de bundas de fora. Loucura. Preciso me focar. Tudo ou nada. É uma chance que tenho. Posso não ter outra. Começo de ano sempre é difícil de arranjar alguma costura. Final de ano, sim. É tempo de aproveitar. Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Ou é calça de veludo ou bunda de fora.

Preciso de alguém para ficar com Madalena. Mas quem? Dona Zezé morreu. Minha irmã Celícia tem aquele marido que não cansa de dizer que eu não tenho condições de criar minha própria filha. O jeito é pedir seu Pezinho pra botar Madalena no ônibus. Ou calça de veludo ou bunda de fora.

A menina está ficando grande e bonita. Não posso deixá-la dormir sozinha no barraco. À vontade do vento. É, Madalena vai ter de dormir comigo no trabalho. Depois da escola, ele se ajeita, come e vai esperar o ônibus de seu Pezinho. Ou é calça de veludo ou bunda de fora.

Tenho de olhar para frente. Olhar para o mundo como quem pensa em tudo ou nada. Bem que a patroa podia me liberar para ir dormir com Madalena em casa. Mas ela já me disse. Tudo ou nada. Precisa das roupas para ir passar o Natal e o Ano Novo no Rio de Janeiro, em Copacabana. Assim, ou calça de veludo ou bunda de fora.

Vou para a fazenda de papai e mamãe. Madalena ama seu avô. E ele a ela. Acho que para compensar a ausência do pai. Sumido no mundo. Nem mesmo sabe se ela é ele ou ela. Me deixou quando eu estava grávida. Desde então sou mulher casada, de aliança, com uma filha. Sem marido. Acho que morreu na construção de Brasília. Desde que me mudei nesta cidade satélite e trabalho no Plano Piloto penso que posso encontrá-lo a qualquer momento pela rua. Mas acho que ele está mesmo é morto. Debaixo de um desses prédios. A vida é mesmo calça de veludo ou bunda de fora.

Estou agoniada só de olhar para Madalena balançando as pernas sentada nessa cadeira. E eu não posso nem parar de costurar para ao menos dar mais atenção à menina. A patroa não permite que ela ande pela casa. Tem de ficar neste quartinho comigo. Trouxe papel e lápis para ela desenhar. Ela se entrete. Mas logo cansa. Gosta mesmo é de correr. Já é quase menina feita. Muito comprida e bonita. Lembra ao pai. Mas é menina de tudo. A patroa ralha se ela se move da cadeira. Para eu preservar esse trabalho ou é calça de veludo ou bunda de fora.

Estou cansada. Minhas mãos estão ficando raladas do cabo da tesoura. Além de manchadas do jornal dos moldes. Os furos da agulha e dos alfinetes nem mais consigo contabilizar. Sem falar de minhas vistas que estão cansadas. Só gosto de trabalho bem feito. Não sou como outras que não fazem direito o acabamento. Cuido de cada detalhe. Para mim, ou é calça de veludo ou bunda de fora.

A cozinheira deixou pra gente um bolo. Madalena adorou. Comemos o bolo regado a café. Depois deram à menina um pouco de suco de laranja. Arrependi-me de ter aceitado esse trabalho. Vamos ficar uma semana dentro desse quarto de costura. E depois vamos a outros e a outros. A patroa me indicou para outras amigas, apesar de odiar que eu traga minha filha. Minha costura não tem defeito. Eu sei. Comigo é calça de veludo ou bunda de fora.

Madalena é boa menina. Inteligente. Saudável. Tenho meu trabalho como minha vida, depois de Deus e minha filha. Marido para mim também era coisa que atrapalhava. Só quer comida na hora certa. Pensa que a gente não trabalha. Que é só ele que labuta. Comprei minha máquina de costura eu mesma. Com dinheiro que ganhei colhendo na roça. Sou mulher inteligente. Quando estudava, o professor elogiava minha inteligência, eu sempre rápida nas contas. Mas meu pai não pôde pagar muito tempo um professor. A vida é assim. Calça de veludo ou bunda de fora.

Madalena dormiu. Botei-a na cama. Melhor. Agora posso costurar mais concentrada. Já é tarde da noite. Tenho de terminar o trabalho. Não posso parar ainda. Falta muito para as roupas estarem em ponto de prova. Meus olhos já fecham sem minha autorização. Nem o café preto e forte os seguram. Amanhã bem cedo vou com Madalena na padaria comprar um sonho bem grande para ela. Sei que meu dinheiro é pouco, mas ela adora sonho com doce de leite. Tem horas que prefiro fazer um sacrifício para ver minha filha estourando de alegria. Na vida, ou se é feliz ou triste. Ou é calça de veludo ou bunda de fora.

Como eu já sabia. Um sonho fez a menina a mais feliz do mundo. Parecia que nunca tinha visto comida. É, esse sonho para ela não é só comida. Comida é o chuchu, o tomate e a couve que planto e nós comemos. Nunca deixei minha filha passar fome. Sei o que é isso. Não é coisa pra gente. Para pessoas que nasceram onde nasci e percorreram o caminho que fiz, a vida nos é apresentada ou como calça de veludo ou bunda de fora.

A filha da zeladora chamou Madalena para ir brincar em sua casa. Que não passa de um cômodo. Ela foi. Graças aos Deuses. Agora costurarei a todo vapor. Deixarei todas as roupas no ponto da prova. Assim faço tudo dentro do prazo. Ganho por dias trabalhados. Por peça ganharia mais, mas ninguém paga nessas condições. O jeito é aceitar o que me providencia o sustento. Nesse quartinho, dentro desse apartamentão, penso cada vez mais no quanto as coisas no mundo ou são calça de veludo ou bunda de fora.

As roupas, cada peça em seu cabide. A patroa começa a experimentar o vestido para o Natal. Marco os ajustes e assim faço com as demais. Tenho ainda todo o dia de amanhã e o resto do de hoje para terminar tudo. Com certeza terminarei. Estou doida para passar o fim de semana em minha casa. Regar minhas plantas. Socar a terra do barraco. Buscar água e lenha. Com o dinheiro que vou ganhar vou comprar carne para fazer com batatas. Eu e Madalena adoramos. A carne bem picadinha. Arroz. Quiabo bem sequinho. Vai ser um bom fim de semana. Lavar roupa. Passar. Escutar rádio por que nem eu sou de ferro. Ouvir aquela música do Jessé. Escutar uma partida de futebol. Serão dias de calça de veludo. A agulha me trouxe ao agora. É sempre assim: ou calça de veludo ou bunda de fora.

Estão prontas. Pode as experimentar para checar os ajustes feitos. Eu já sabia. Tudo perfeito. A vassoura desliza nas linhas e pedaços de pano no chão. Ajunta-os. Mosaico de cores, texturas, formas. Na pá parecem lixo. Só lixo. Madalena calça os sapatos. Ajeita-se em frente ao minúsculo espelho que botara em cima da cama. Ajeito seus cabelos em um filete do tecido da patroa. Bem fino. Sorriso mais lindo do mundo. Igual ao do pai. Já está na hora. O tempo é guiado mesmo pelo ditado. Calça de veludo ou bunda de fora.

Estamos as duas molhadas. O guarda-chuva não resistiu. A parada está lotada. Eu e Madalena mal cabemos num cantinho. O ônibus uma imundice só. Lama nos pés dos que correm, se sujam, suam. Haja o frio que houver. Madalena ronca docemente. Troco sua blusa. Ela tem, como eu, os pulmões fracos. Não quero passar de novo três meses com ela internada. O pé furado por um prego. Quando brincava perto de uma construção. Tétano. Meningite. Pneumonia. Comigo a vida é assim: ou calça de veludo ou bunda de fora.

Vida na medida. Na fita métrica. Madalena ainda boceja. A patroa já me espera. Uma semana de costura. Dinheiro para ir à fazenda de meus pais. Passar lá dias melhores. Com minhas irmãs, sobrinhos. Madalena corre. Sobe em árvore. Anda a cavalo. Mata passarinho. Farra de menino. Felicidade de menino. Para mim, mais carretel. Linha. Agulha. Tecido. Ilhós. Mas, agora tudo isso é pra mim e pra quem é de mim e por mim. Calça de veludo ou bunda de fora.

Ruído de pequenos passos

Com certeza eu já escrevi muito mais pra mim mesma do que pra qualquer outra pessoa. Essa é minha forma de estar no mundo. Desde pequena sou assim: dentro da minha casa, dentro do meu quarto, mas também passeando por ai.....com as palavras! Agora, que estou mais crescida, resolvi sair de meu quarto e passear por ai....também com palavras.
Tu não te moves de ti, é um recado-advertência para mim e para quem mais a carapuça servir! Para os que acham que as palavras caminham, mas que sabem, com toda certeza, que não se movem delas mesmas, apenas nos emprestam um pouco de sentido à vida! Ou nos explicam a sua total falta de razão!