21 de jul de 2009

Pois pronto

"Abandono" - Oswaldo Goeldi, 1937



Ela, com a cabeça baixa, conhece sua nova cama. O medo de que as palavras saiam de sua boca a acompanha. Olha para seu neto que lhe inquire fatos que ela não quer rememorar, e as lágrimas correm. Sente-se humilhada por sua história. E contá-la é revivê-la. Mas se não contar não há grito.


O abraço oportuno de sua neta a livra, por alguns instantes, das palavras que lhe coçam a garganta umedecida pelo choro engolido. No desvencilhar das pontas dos dedos, os olhos dos outros e a iminência das perguntas a fazem exclamar: Não me peçam para narrar a dor.


Mas como no mundo se está cercado sem constrangimentos da dor dos outros, eu conto. Pois pronto. Se posso contar a vocês agora, é por que tudo já se findou. E como já disse alguém, mas de outra maneira, querendo dizer a mesma coisa: se acabou, é por que deu certo.


Digo todas essas coisas tentando convencer-me de que tudo acabou. Como se a memória não fosse tão real quanto os pés no chão. O despedaço de minha vida até aqui residiu na seqüência de esperanças roídas. De chegadas nunca ocorridas. O esperar com esperanças dos que não movem os antebraços de encostos.


Pois pronto. Ela me deixou sem nada nos armários nem nas latas. Foi-se com aquele outro. Sem nem ao menos olhar pela fechadura ou escutar pela porta minha respiração. Foi-se e eu fiquei. Não sei o porquê. Talvez ele não exista. Talvez seja apenas o desejo de ir e de deixar.


As palavras pra fora me calam tão fundo como as que permanecem. O fantasma do abandono novamente me faz tremer. O que depositou vida dentro de mim partiu. Assim também nosso fruto se foi. Foram para junto de outros que não eu. Antes a morte os tivesse levado. Foram com seus próprios pés. E eu fiquei com os meus. Em meus devaneios vejo tudo de trás para frente e sorrio com a chegada-partida.


Agora nada disso importa. Estou com vocês e tudo será novo. Trouxe minha televisão e meu colchão. Perto dos que têm meu sangue e que me têm cuidado. Obrigada pelas palavras, braços e mãos estendidas. E pelos ouvidos abertos.



19 de jul de 2009

Faca de dois gumes



Pessoas que gostam de dividir seus sentimentos, anseios, angustias consigo mesmas, às vezes utilizam a escrita como fuga da realidade inevitável. Mas, com o passar do tempo, toda a vivência prensada no papel torna-se memória do que, quase sempre, se quer esquecer.

17 de jul de 2009

O fabuloso destino de Isaura e Juarez (e eu)

"O beijo" - Gustav Klimt, 1907-1908




"Tempos difíceis para os sonhadores"

O fabuloso destino de Amélie Poulain

Eu quero um amor como o de Isaura e Juarez. Banhos tomados juntos. Mãos dadas. Palavras e ouvidos. Sentados lado a lado. Um no fogão e outro na pia. Os beijos cotidianos, os ocasionais e todos os outros. Um lavando os cabelos do outro. Tirando-lhes a espuma do pensamento.



Mesmo com as brigas. Sabiamente freiadas para não se sentir nem ao menos o cheiro da ausência do outro. Queria ser Juarez quando Isaura penteava seus cabelos molhados. Queria ser Isaura quando Juarez passava as mãos lentamente por suas sobrancelhas desgrenhadas.



Vejo-os desde minha pequenice. O ralear e o esbranquiçar de seus cabelos, suas mãos entrelaçadas enrugando-se e tornando-se uma só com o juntar das dobras. Ao parar de enxergá-los, os imaginava em diferentes tons, espaços e tempos. Sempre Juarez e Isaura. Eu sempre querendo sê-los.





14 de jul de 2009

No vento


"Juturna" - Esao Andrews, 2005


Caminho na urdidura da vida.

A vida talhando a cada instante em que apisoteio.

Tudo cheio.

Buraco mesmo só na beirada onde me esgueiro.

Ainda atordoada pelo vento forte.

Não sei o caminho.

Imagino que chegarei a algum campo aberto.

Terreno para viver.

O tempo: um amontoado de dias-lembranças entre as rachaduras de minha pele.

O vento castiga quem contra ele vai.

Mas, quando quero, sou fincada como raiz velha.


(Não tô querendo me desculpar, mas esses dias têm sido pesados de carregar. Dias bons, sim. Mas que me consomem. A única coisa que consegui tirar da cortola foi esse arremedo de escrita.)


11 de jul de 2009

Pedra morta

"Melancolia" - Edvard Munch



O que são as pregas em meu rosto. Essa pergunta me leva a tempos e espaços que só consigo precisar com o auxilio do presente e do fardo de minha memória esgarçada. De nada adianta lavar o rosto. Secá-lo com uma toalha esfregando com força. As dobras não abandonam. Impregnaram-se com força e para ficar.


Nunca antes havia pensado que as conseqüências pelo que se fez fossem tão irreversíveis. Achava que para tudo se dava um jeito. Mas tive de encarar o fato de que quando se recebe as conseqüências e não há mais nada a fazer, só resta agüentar o peso, seja esbravejando ou calando-se.




Obs: Desculpem pelo post meio deprê. Prometo que o próximo terá cheiro de alegria!


8 de jul de 2009

Dica de filmes: Minha vida sem mim (2003), A vida secreta das palavras (2005) e Fatal (2008), todos de Isabel Coixet

"A maja vestida", de Goya



Conheci o trabalho da diretora Isabel Coixet primeiro através do filme A vida secreta das palavras (2005), por indicação. Me apaixonei de cara. Desde então, tenho-a como minha diretora favorita. Ao lado de minha escritora favorita, Clarice Lispector. Ver um de seus filmes é como olhar para o que há de mais sensível e bonito, como também me sinto quando leio Clarice (viu como sou intima dela!!!). Elas me coincidem. Não que eu seja como elas. Mas eu gostaria de ter feito cada linha escrita e dirigida por elas.


Até agora vi três filmes de Coixet – Minha vida sem mim (2003), A vida secreta das palavras (2005) e Fatal (2008) – e quero ver todos os outros que ela dirigiu: ¡Hay Motivo! (2004), Paris, Eu te Amo (2006) e Invisibles (2007). E sugiro que todo mundo, de verdade, possa fazer o mesmo. Todas as cenas são envoltas de uma ternura pouco vista e buscada por outros diretor@s. De uma forma bem diferente, lembro de outro diretor que admiro pra cacete. Ingmar Bergman. Filmes como o que eles fazem me reanimam a existência.


Gosto de ver histórias e pessoas que conseguem ter uma vida com uma tristeza feliz, ou uma felicidade triste, não sei bem o que mais se aplica. E não estou fazendo um jogo de palavras vazio. Eu não consigo me sentir feliz sem, ao mesmo tempo, não sentir que tenho muito a perder. E essa é a atmosfera dos filmes de Isabel Coixet. Mote que perpassa pelo menos os três filmes citados. Suas personagens são assustadoramente humanas e reais. Muitas vezes, a verdade crua choca. Mas em seus filmes, tudo se cerca de uma leveza que nos faz esquecer que a dor é algo ruim. O que pode até nos levar a acreditar que a dor carrega alguma beleza.


Me recuso a ver beleza na dor. Mas como sentir-se feliz sem sua iminência? Talvez de vários modos. Talvez acreditando que focar-se por instantes em algo alegre possa nos fazer assim também. E esses instantes de alegria também são contemplados nas cenas dos filmes de Coixet. Não vou citar aqui personagens ou cenas especificas, mas apenas me detenho na atmosfera que envolve sua obra, o que, pra mim, é que de melhor se pode sentir.


Pra mim, de nada adiantaria contar aqui o enredo dos roteiros. Pouco diria sobre a experiência de ver cada um desses filmes. Me senti tão pessoalmente tocada por cada uma dessas narrativas que me trairia se as reduzisse a uma seqüência de ações. Acho que isso é medo de eu sentir que tenho uma existência por demais pequena. E por demais nua.


"A maja nua", de Goya


4 de jul de 2009

A dança

"A dança" - Henri Matisse

Para dona Júlia

Quando fico imersa em mim mesma. Quando o mundo a minha volta me rejeita. Quando todos têm seus pares e grupos e eu sobro. O que mais desejo é sentar-me em frente a um computador. A uma tela em branco do Word, mais precisamente. Ou a uma folha de papel, em todo caso. Mas nem sempre isso é possível, ou recomendado. A não ser que se queira ser visto como alguma coisa ruim, ou sei lá o que. A despeito desse desejo de solidão pela fuga da solidão, num dia desses, fui inesperadamente surpreendida pela aleatoriedade das coisas.

Eu, mais três velhas, de 65, 70 e 88 anos. Juntas para visitar outra velha de 86 anos. Eu, 21 anos. No caminho, tomada pela leseira da comida ainda indigesta, tive de abrandar meu passo. As passadas eram curtas e lentas. Cada uma carregando um transcurso de muitos dias. Houve algumas palavras. Que não me recordo quais foram. Talvez algo sobre a importância de se visitar aos que fazem e fizeram parte da vida. A obrigação de espiar a vida alheia como forma de mostrar-se preocupado com o outro.

Já lá, o desajuste de idades não se fez desajuste de compreensão. Nós nos entendíamos no olhar. Como que tentando desvendar umas as outras. E assim, sempre falando, ficamos mais de duas horas. Eu mesma, nem recordo se falei alguma coisa, acho que não, mas conversei com todas elas, de alguma forma.

Vozes sobre as famílias, filhos mortos. Maridos ainda vivos. Um gato passeando pela casa, repleta de lembranças: fotos, canecas, taças, lembrancinhas de escola trazidas pelos netos e bisnetos. O colesterol. O filho drogado. O casamento desfeito de outro filho. E sua volta para casa. A medição diária da pressão. O artesanato. A visita dos filhos e filhas. A vida corrida dos outros. E a casa delas, já parada pelo tempo, torna-se parada para quando se quer parar.

Eu adentrando a casa. Descobrindo os espaços e suas histórias. O choro. A gargalhada. Uma delas cai no cochilo, sob o efeito de remédios muito fortes que toma para continuar a respirar. Outra já não escuta muito bem e ignora-se até de si mesma. Uma resmunga sem parar. A vida em excesso, às vezes, faz isso. O tempo, um presente e um castigo.

Coloquei-me na imaginação em um corpo velho, cheio de dobras e histórias. Figurei momentos. Pensei-me diferente delas em meus afazeres outros. Em outras roupas. Com outras coisas a se contar. Menos ou nenhum filho. Talvez mais gatos. E desejei poder ter ainda planos quando chegar a essa altura da vida.

Nenhuma delas, por suas palavras, desejava alguma coisa além de mais algum tempo sobre o já pisado mundo. Eu não me atrevi a perguntar-lhes o porquê. Se tudo que cercava estava tão cheio de pó e formado apenas de memórias, porque continuar, se tudo já se viveu? No momento, não pensei em nada que pudesse responder a essa questão. Mas hoje, passado algum tempo, penso que elas desejavam continuar a pisar no chão pelo simples fato de que contar o que se viveu pode ser tão prazeroso quanto se viver. E não é que isso pode ser verdade!



2 de jul de 2009

Sem os barulhos do mundo



Sem os barulhos do mundo.
De dentro de sua jaula.
Que não a permite estar com ela ou comigo.
Jaula sua ou jaula minha?
Não há qualquer movimento para fora de si.
Sempre encasulada.
Medo do que aparece apenas no escuro.
Cerca-se do mundo até as pálpebras se fecharem definitivamente.
É medo de si. Do seu profundo.


Cheguei a escutar o barulho das jaulas se chocando.
Um barulho de metal estridente e agoniante.
Nenhuma jaula foi quebrada.
Ou mesmo amassada.
Apenas muito barulho por nada.
Cada um com suas certezas.


O que tenho de meu, talvez o que apenas no escuro apareça.
Como vaga-lumes fosforescentes.


Meu interior, um liquidificador que trabalha enquanto eu vivo.