31 de ago de 2009

A roda nunca deixa de tocar o chão - II


Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente

Camille Claudel


Sinto iniciar-se um medo desconhecido. Daqueles de trancar a garganta e suar as mãos. Tentei inventar um personagem que o narrasse por mim. Mas me falta o traquejo de transferir minhas palavras a outro qualquer, nascido apenas pelo artifício, sem sangue lhe pulsando em veias. Não posso fazer isso enquanto sinto meus pés frenéticos tocando e não tocando o chão em um movimento que me angustia. Se esperar tudo isso passar, posso perder esse sentido que tanto me inquieta, não a deixando virar palavras.


Esquecerei. E tudo se tornará apenas palavras, talvez canções, que também serão esquecidas. Quem sabe escondidas. A memória seca, em uma hora qualquer, poderá ser regada. Agora, furto-me a viver pelo medo de me esquecer. A ânsia de não poder guardar é maior. A ingratidão da vida no tempo presente. Sem poder desvendar no instante o que os meus passos querem dizer.


É essa ausência que me angústia e me leva ao nada, ao estado de prostração em que tento prender em minhas mãos úmidas o esquecimento. Sem mais do que se possa recordar. Sem mais para se perder na vastidão dos dias acumulados. Mas nem assim seguro a lembrança. O tempo me trai. E contra ele nada posso fazer. Posso apenas tentar viver o agora que tanto temo em não recordar manhã. Eu traio o tempo.

27 de ago de 2009

Cerzindo feridas



Este é o meu primeiro e único blog. Creio que ainda nem mesmo comecei a cortar o tecido que o compõe. Acabei de tirar algumas medidas e fiz alguns moldes iniciais. Ainda um tanto quanto grosseiros. Pois não sei bem nem o comprimento nem a largura que devem ter. Costuro por intuição. É certo que tenho de trabalhar duro em cima de cada pequena peça. Cortar, costurar, descosturar, costurar outra vez. Como não fiz curso de corte e costura, é no manejo dos tecidos que vou aprendendo. Algumas peças podem ficar mal costuradas, com uma barra mal feita ou uma perna da calça maior que a outra. Mas continuo, mesmo furando de vez em quando os dedos em agulhas e alfinetes, a costurar. Sempre assim, costurando pra fora e pra dentro. Expondo cada peça em praça pública. Me cortando, me vestindo e me despindo.

24 de ago de 2009

Com a balança quebrada


Hoje é o dia de meu aniversário. Faço 24 anos. O que pra mim quer dizer muitos anos nas costas. Mas sei que isso depende do referencial. Um dia como outro qualquer, repleto de coisas a fazer e a pensar. Um marco necessário para me festejar. Gosto disso. Sou tão rotineira para mim mesma que meu aniversário significa sempre uma respiração. Umas respirações mais fundas que as outras, mas sempre uma respiração. Cada ano com sua história.

Costumo me empolgar facilmente com as coisas. E com a mesma facilidade transformo coisas pequenas em gigantes. Quem me conhece, ou lê o que escrevo, já deve ter percebido isso. Sou obcecada por pequenezas. Até aqui, tudo está dentro do script. O difícil é quando os que me rodeiam não dão a mínima pro mínimo. Ai está o meu problema. Mas hoje é meu aniversário. Nesse dia não tenho defeitos. Guardo-os para os dias dos outros.

Mas a exceção desse dia em minha vida, pelo excesso de tudo que desejo pra mim mesma, sempre me traz um cadinho de melancolia. Aquela sensação de não ter muito do que se orgulhar de ter feito. A sensação do nada ou do pouco feito. Por esse sentimento, como boa viciada em listas, também faço uma lista de promessas de aniversário, outra de desejos de aniversário. O número de itens varia de ano para ano. Nunca revelo o conteúdo dessas listas. Acho que nem pra mim mesma até chegar o próximo aniversário e eu me lembrar de reler a lista passada.

Numa balança de perdas e ganhos, neste aniversário, não teve nem muito de um nem pouco de outro. Minha balança simplesmente quebrou. Sou incapaz de fazer essa pesagem cretina. Não sinto vontade de ser nem o tipo de pessoa que vê coisas boas em tudo, e nem o seu contrário. Penso que se perde sendo dos dois jeitos. E também o equilíbrio não me faz bem. Vejo na suposta tentativa de colocar o equilíbrio como perfeição, uma das maiores falácias que já escutei. Pelo menos pra mim não funciona.

Por fim, e neste novo começo, desejo-me todas as pieguices que fazem tão bem a mim, e a quase todo mundo. Não espero muita coisa, sinto-me ocupada tentando fazer o que desejei por muito tempo.


18 de ago de 2009

A roda nunca deixa de tocar o chão

"Full circle" - Duy Huynh, 2004.


Todos os dias o mesmo som entoando minha viagem. As vozes se misturam. Os barulhos do amontoado de gente e coisas no mundo. Quase as mesmas pessoas sentadas nos bancos. As histórias, muitas vezes, só mudam de bocas. Há o assento em que costumo sentar-me. Hoje nem ele nem nenhum outro está vago. Abro a bolsa, verifico se de nada esqueci. Sempre o mesmo passo a passo. Minha forma de organizar a existência que teima em descarrilhar.


A viagem é longa. As paradas são muitas. E as pessoas são tantas mais que tudo isso. Nessa hora, nunca tenho muito a dizer às pessoas, nada mais que um leve aceno de cabeça ou um “jóia” com o polegar. E só. Enfurno meus pés no assoalho e ali permaneço até minha parada. Sem palavras. Às vezes com ouvidos.


E o suor escorre por minhas mãos. Minha boca torna-se seca. Sentar-me resolveria metade de meus problemas. Longe de ter isso, seguro-me nos ferros do assento à minha frente. Tenho por segundos alguma segurança. Bebo o restante da água que trago comigo. Coloco uma bala na boca. Forço um bocejo. Meu corpo não me obedece. Insiste em querer abandonar-me. Pouco se pensa quando a carne treme.


Falta pouco para chegar. E esforço-me para permanecer de pé. Com o ônibus lotado assim, ninguém pode me ver direito. Não se percebe o outro. Sinto corpos ao meu redor e é só. Todos eles com suas massas de carne e sangue. Tocando superfícies talhadas pelo rotineiro da vida.


Caminho para o final do ônibus. Esforço-me para alcançar o botão do sinal. Pouco de mim me responde. Meus olhos insistem em fechar-se. Desço um degrau, depois outro e mais outro. Já sentada e fora, tento respirar devagar e espaçadamente. Sinto que posso caminhar. Assim faço, movendo-me com um passo de cada vez.


A céu aberto, caminho pela noite escura, e a leve brisa que prenuncia a chuva alcança meus olhos. Por instantes me sinto como se fosse destinada a viver eternamente pegando sereno no descampado que é o dia atrás de outro dia. Consigo abrir a porta de minha casa. Lembro que amanhã será tudo novamente do mesmo jeito. Na ida e na volta.

4 de ago de 2009

Carroça de tijolos e gente

Sol a pino. Entre os automóveis que buzinam, freiam, aceleram há a minha vida dentro desta carroça. Dividida entre filhos, tijolos, cavalo. Além de muito barulho.

Lutando para passar por esse resto de concreto jogado no meio do caminho. Cavalo, não desequilibre. Não faça espetáculo com a vida alheia.

A vocês, saiam daqui. Não sou televisão para cachorro. Sou gente com tijolos. Não me olhe como quem vê um quadro surrealista. Sou gente não-tinta. Sou gente sem-filme, sem-pixel.

Tenho as rédeas de minha vida. Faço de um tudo. Construo casa. Cuido de filho. Sei ler e escrever. E vejo tudo. Creia, vejo tudo.

Vejo seu pequeno filho entre seus seios. Vejo seu olhar sem rumo. Vejo sua mão tremula. Sei que me vê sem precisar de um sol a pino para iluminar. Não pense que é humano por me ver. Vejo a você de forma igual, de meu ângulo, entre as rédeas e o içar do cavalo.

(As imagens são d'osgemêos)




1 de ago de 2009

Guardado, bem guardado

Na minha casa, no aniversário de um mês da minha irmãzinha.



Lendo e vendo algumas entrevistas com escritoras e escritores de agora e do passado, me sinto um tanto quanto retardada. A maioria, se não todas e todos, dizem ter uma memória muito boa. Dizem lembrar-se de acontecimentos e sentimentos de quando eram muito pequenos. Tipo, com um ou dois anos de idade. Pra minha vergonha, minha lembrança mais antiga é de quando eu já tinha 4 anos de idade, quase 5. Uma anciã na matéria de lembranças! Nessa mesma idade, Clarice Lispector lia e escrevia, e eu, nem memória tinha.


Ao longo do tempo adquiri a habilidade de esquecer. Quase todo mundo tem essa habilidade, grande coisa! Os motivos, não vale a pena lembrá-los. Habilidade necessária, diga-se de passagem. A primeira coisa que me lembro, voltando no tempo, é de quando minha irmã nasceu. Minha memória começa com ela. Na verdade, tenho a impressão de ter na memória coisas mais antigas, mas são apenas vultos. Nitidez só quando fui buscar minha irmã na maternidade.


Quando cheguei em casa, só queria estar com ela durante todo tempo. Minha boneca. Nunca fui afeita a brincar de casinha ou de boneca. Mas com minha irmã era diferente. Era parte de mim. Muito cedo senti isso. Para o bem e para o mal dela.


No aniversário de um mês de minha irmã fiquei o dia inteiro ocupada preparando a festa. Uma agitação só, imaginem! Eu e minha mãe preparamos bolo de laranja de caixinha, gelatina de limão e suco de laranja tang. Nunca participei de outra festa que me desse tanta alegria. Os convidados eram eu, minha mãe e a aniversariante. Foi uma festa inesquecível.


Pena que vocês não estavam lá. Teriam se divertido comigo, fazendo carinho na cabeça já repleta de cabelos de minha doce irmã. Sei que também ia curtir segurar nas já fortes mãos dessa criaturinha. Sem falar no melhor: poderiam tê-la, se eu tivesse de bom humor, em seus braços.


Minhas memórias começam por aqui. Apesar de serem memórias de uma criança sem muita genialidade e sem muita diferença das tantas outras, são as lembranças que tenho o prazer de guardar bem guardadas em um lugar que a maldição do tempo não chega.