19 de set de 2009

A nada imploram tuas mãos já coisas*


Acordei. Como de costume, na mesma cama. Com meu corpo na posição de sempre a essa hora do dia. Entrando na cozinha, vi uma mulher que muito viveu. Ela tinha nas mãos um papel que acabara de dobrar. Percebi que o dobrava exatamente nos mesmos vincos que o papel já possuíra. Parece que não querendo deixar marcas de que estiveram ali mãos outras, estranhas e indesejadas. Depois, cheirava-o e guardava-o entre os seios. Parecia mergulhada em algo mais que água e mais que o próprio sonho.


Voltando à concretude da cozinha. “Comprei pão, tem café na garrafa e mamão na geladeira”. Eu seguia a conversa com um “Obrigada”. Essa mesma cena aconteceu por vários dias. Senti, em todos eles, que eu roubava algo do mundo. Tirava-lhe alguma coisa. E ela aceitava o roubo. Não apenas parava de ler sua carta – poema – história – bilhete (não sei precisar o que seja), ela parava de pensar em si, no que a levara àquele instante.

Nesse dia, acordei pensando que já era hora de deixar as lembranças adormecerem. Depois que seus ecos não existem na realidade, nada fazem, são apenas remorsos, dores, arrependimentos, faltas. Sentia, de alguma forma, que compartilhava esse sentimento com Meire. No instante em que ela abria seu papel, eu abria minha caixa de e-mails, e lia as palavras que eu procurava. Tudo já em vão.

As palavras nada diziam ao vazio que nos cobria. Enchiam apenas a folha e a tela. Falavam de coisas que não poderiam mais existir. Mesmo que se pudesse seguir suas pistas, no fim só se encontraria o mesmo e grande vazio recoberto de palavras sem forma e sabor. A emoção que um dia houve ao ler e reler transformou-se na revolta imóvel.

Palavras repletas do impossível. Imagino-a escrevendo num dia em que o sol brilhava nos vidros da janela. Ela a fitando com o olhar dos que nada mais têm a perder. E os dedos frágeis sobre o teclado, com o peso de fazer a memória. O fugidio da vida mostrando-se em seu corpo. Sabendo nesse instante diferenciar memória e vida. Pela força da finitude.

Quando leio essas palavras, postas na volátil e impessoal tela de computador, perco a coragem de imprimi-las, de a tinta no papel fazer do meu horror o mesmo horror de Meire. O medo de fazer desintegrável essas palavras que me dão tamanho, espessura e cores de uma vida que foi minha.

Sei dos limites. Reconheço-os quando olho minhas mãos. Desejo inescrupulosamente enfiá-las entre os seios de Meire e arrancar-lhe a dor. Devorá-la para não deixar vestígios. E sumir com elas. Esse sonho me mostra, por um instante, uma possibilidade de salvação. Nos instantes que sobram, percebo que nada são essas palavras. Mesmo sem tê-las na superfície em que posso vê-las, elas se esconderiam em outros lugares em que, piores que o papel e a tela, invadiriam a mim e a Meire sem nosso consentimento: pelo poder do não-se-ver e do existir.

* O título desse post é um verso de uma ode de Fernando Pessoa, como Ricardo Reis, em Odes do Livro Primeiro.

9 de set de 2009

Palavras de outro



Quando não tenho nada a dizer, o que acontece frequentemente, digo palavras de outr@s.

"Estou cansado de correr, cansado de ter que carregar a vida como se fosse uma cesta de ovos"