26 de out de 2009

Cabo velho




Do pisar nas folhas secas ecoa um som que alivia. Como se tivesse a certeza de que, quando não resta mais nada e tudo já é seco e sem vida, uma beleza qualquer espreitasse a existência frágil de uma folha. A senhora sentada na escada parece saber disso, com seus olhos intumescidos de lágrimas e o esboço de um sorriso na face. O peso de ter de reconfortar o filho possivelmente tirou-lhe a quietude da vida. Colocara para si naquele instante que não podia morrer. Não confiava que os outros pudessem amá-lo como ele agora era.

Olhavam-se nos olhos. Ela logo pegou o pano que ele pressionava na face e tratou de ser a responsável por não deixá-lo cair. O sangue ainda jorrava. E uma secreção não parava de sair das narinas deformadas pela queda. Sentia todo o peso do filho sobre um de seus ombros. Se fora capaz de carregá-lo um dia, hoje não se sentia capaz, mas compelida, como única que poderia fazer aquilo. Sabia que era isso o amor, ele lhe corria pelas veias e sinapses cerebrais. As grandes mãos sem força eram só peso.

A casa estava limpa para recebê-lo. Seu irmão mais velho, do primeiro casamento do pai, veio sem dar uma palavra no percurso em que dirigia. Só a casa o recebia. Todos os irmãos iriam vê-lo mais tarde, quando chegassem do trabalho e da escola. O primeiro que o viu foi o caçula. Olhava o rosto do irmão com asco e fascínio. Não via ali aquele com quem um mês antes saia para andar de bicicleta, olhava para o rosto de alguém que só merecia pena. Sentia-se muito mal de pensar isso, não lhe viam outras coisas, mas sabia que o tempo as trariam.

Look like us - Diane Arbus

Nunca antes ele tinha visto águas tão calmas. Por isso, jogou-se sem medo e por um segundo foi feliz e logo não era mais ele. Rápido assim. Tudo que se passara antes foi apenas moldura para esse instante. E o depois era só o depois. Como sempre, mesmo sem poder falar, e só com as mãos, mangou de si mesmo. Fez a todos ao redor rirem sem que nenhum o quisesse. Quando acordou da queda, estava cercado por pessoas que não podia distinguir quem eram. Sabia que estava sendo carregado, mas não sentia nenhuma parte do corpo. Apenas tinha a intuição de ter vermelho nos olhos, sem nenhuma certeza.

O gás já está acabando. A chama azul prevê. É tiro e queda. Nessa hora não há dúvidas, pode demorar pra mais ou pra menos, mas o certo é que está próximo do fim. Assim pensa Socorro, sem querer saber o que isso significa. Só sabe e não entende que seu filho de 20 anos, recém ingresso nas forças armadas, está aposentado para o resto da vida. Pensa e repensa como apenas um nariz, que se espatifou como vidro e perdeu sua carne pela doença que já habitara silenciosa há anos o filho, tinha o poder de tornar uma pessoa outra pessoa para os olhos do mundo. Na água da piscina ainda deve ter sangue do seu sangue. O filho, aos vinte anos perdeu o nome de batismo e tornou-se Cabo Velho.

Foi assim que começaram a chamá-lo. Quem começou e o porque não dá para precisar. Nos primeiros cuidados, ao olhar a face do filho, a mãe chegou a pensar que tudo poderia voltar para o seu lugar. Porém a esperança é feita de matéria frágil. Bastou ver o filho sentado na mesa imunda do bar da esquina pagando bebida para desocupados que percebeu que não havia mais como. Quando se sai do script, o mundo não é o mesmo, a mãe pensava constantemente e temia dias eternos como aquele.