6 de nov de 2009

Me perdi no dobrar da esquina

Quando tive de escolher o meu jeito de ser,
optei pelo mais conhecido de mim,
esse jeito que foge

Marilene Felinto, em Mulheres de Tijucopapo.


A culpa foi minha, ou antes,
a culpa foi dessa vida agreste,
que me deu uma alma agreste
Graciliano Ramos, em São Bernardo


Tenho de confessar que um fantasma ronda minha existência. Ele se chama "a suspeita de nunca encontrar lugar". Acabei de ler o livro Mulheres de Tijucopapo de Marile Felinto, e me coincidindo com a narradora/protagonista, Rísia, tive medo dos eternos desencontros e desacolhidas. Não sei se é o processo de amadurecimento - que tenho consciência de que está só no começo para mim - ou um dado concreto de minha personalidade, mas a questão é que têm sido raros meus encontros com outras existências, seja pela superficialidade nas relações, seja pela discordância, seja pela total e completa diferença. Os choques e fraturas estão ganhando uma proporção que eu nunca imaginei. Poucos são os amigos com os quais eu posso dividir. As diferenças se agigantaram de tal forma com o tempo que quase todos os elos se perderam. Às vezes chego a pensar que o caminhar só traz a distância. Aprendi sim que na amizade tem-se de, muitas vezes, relevar as diferenças e os defeitos. Fechar em alguns momentos os ouvidos para poder continuar a ouvir. Mas nunca abrir os ouvidos não é uma solução. Concordo com Clarice Lispector quando diz que "amizade é matéria de salvação". Porém, estou aprendendo que a amizade é matéria pouca e rara, pois as distâncias se agigantam com um dobrar de esquinas.

1 de nov de 2009

Epiléptico




Uma das melhores coisas que li nos últimos tempos é a história em quadrinhos Epiléptico (La ascension du haut mal), de David B. São três preciosos volumes que valem a pena ler. Em português foram publicados apenas os dois primeiros volumes. Em linhas gerais, trata-se da história da relação de Pierre- François com seu irmão que sofre de epilepsia. Para quem já leu e gostou de Persepólis, de Marjane Sartrapi; de Retalhos, de Craig Thompson; de Umbigo se fundo, de Dash Shaw, e de HQs autobiográficos semelhantes, enfrente a leitura!