25 de jan de 2010

Olhos trocados


Olho tudo ao meu redor tentando buscar resquícios de uma vida que me foi apenas narrada pela voz já castigada pelo tempo. Queria vê-los. Mas tudo me é conhecido. O tempo por aqui não parou. Eu queria me ver de alguma forma nessas paisagens. Completá-las. Já sou outra que não ela. Percorrem-se sempre caminhos que nunca se passará mais. Não encontrei as memórias. O sertão descrito, as estradas de terra vermelha. Eu queria escutar aquelas vozes contando e cantando histórias e um motor barulhento de pau-de-arara roncando no qual eu estaria pendurada em uma rede comendo paçoca socada um dia antes. Sem todos os toques de celular e esse ar condicionado que refresca e que torna tudo tão banal. Até mesmo o vento raro, não o sinto. Há trilhos, luz, estradas, casas de tijolos e antenas. Mas por que quero a estagnação aos outros e não a mim que vivo em uma caixa suspensa no ar com todas as tomadas ligadas?

19 de jan de 2010

Abafar o espanto



O que me incomoda são os olhares alheios. Lido bem com minha agonia, desde que ninguém a veja. Mas o corpo trai. A contorção acontece sem nem eu perceber. Os olhares não perdoam minha distração de mim mesma e logo vêem que sou do tipo que espera na agonia.

Nunca aprendi a estar tranquila. Tento resgatar em minhas memórias a origem de eu ser o que sou, mas a busca é vã. Mesmo indo atrás dos resquícios de lembranças deixados pelo caminho não há o que descobrir. Há o que se tem de viver. Há outra saída: fugir do que me acostumei a ser. Isso também não me trás a paz. Talvez eu goste de caos.

7 de jan de 2010

Do lugar onde estou já fui embora



Os rostos já não se fitavam mais. Senti um sopro em meus ouvidos reverberando palavras que de tão unânimes e clichês fizeram pouco sentido: você logo se acostuma, tudo é passageiro.

A principio, recusei-me a ter como saída palavras gastas como essas. Poderia tê-las escutado de qualquer boca. Até mesmo da minha. Mas me acostumei a procurar caminhos onde não havia caminhos, e tratei de não dar ouvidos aos sopros. Teimei em esmurrar as portas trancadas para ter o gosto de sentir a impossibilidade em minhas mãos.

O silêncio foi ganhando proporções que nunca pensei que pudesse suportar. Olhando ao redor tento me lembrar do que me trouxe a esse instante, e respondo a mim mesma que foram meus próprios pés, movimentando-se um após o outro, tropeçando um no outro, esbarrando calcanhares e dobrando dedões instantes antes de cair.