9 de mai de 2010

Apresentando uma nova personagem




Voltando-se para si, olhando-se através do espelho rachado por sua ira, enxerga uma mulher cansada de si mesma, mas que ainda pensa em recriar-se por pelo menos mais uma vez. Busca sentir novamente o primeiro gosto. Mesmo não acreditando nessa possibilidade, ela abre todos os dias os olhos buscando o nunca antes avistado e visto.


Suas mãos não a deixam mentir, a vida não lhe fora de graça. As dobraduras do tempo vincaram sua existência vivida muitas vezes como uma seqüência de encontros e desencontros sem sentido. Também seus olhos bem abertos e negros como a noite em sua plenitude não a deixam mais enganar-se. Aprendera muito cedo que objetivos sem ações são meras intenções. Sua mãe já lhe avisara sobre isso.


Sim, aos 30 anos já se sentia calejada pelo passar dos dias, mas também sabia que passava por um nevoeiro que a qualquer momento podia findar-se. Como se via e sabia que era capaz de abandonar a todos e a tudo, tinha de acreditar que nada valia muito a pena.


Acordava todos os dias para trabalhar porque precisava. Comer bem lhe dava prazer. E tudo lhe custara caro. Olhar todos os dias para seu chefe lhe embrulhava o estomago. Fazer sapatos foi o que lhe restou depois que a terra nada mais quis dar.


Das palavras tomava certa distância. Fazia tempos que se sentia cansada com o desnecessário falatório do mundo. Precisava apenas de silêncio ou de, quem sabe, algumas palavras certeiras que lhe fizessem algum sentido.

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