15 de ago de 2010

No porta-retratos

Willem de Kooning

O último retrato vale para sempre
Carlos Drummond de Andrade

Os cabides, na solidão das duas portas abertas do armário, não penduram mais suas roupas. Sobrou apenas a favorita: um vestido de linho lilás com detalhes em branco. O comprimento no joelho e as mangas a meio braço deixavam um pouco de pele em contato com o mundo, mas o principal é o bolso escondido em que guardava dinheiro. Ninguém sabe os segredos que uma costureira pode ter, os bolsos que se escondem com falsas costuras e zíperes invisíveis.

Quase todos os seus vestidos eram do mesmo modelo, seu molde está guardado na última gaveta da mesa de cortar, junto com algumas tesouras imprestáveis e botões cobertos de tecidos coloridos. O molde não tem mais serventia, pois suas medidas não batem com o corpo que o originou, elas se perderam com o seu fim.

Na tentativa de remendar o buraco que se criou, minha mãe colocou ao centro da mesa de cortar um porta-retratos com a última foto tirada de minha avó, na qual ela está com seu vestido favorito. Mas a cadeira, que por debaixo eu via os pequenos pés com havaianas, está vazia, e a eternidade não consegue remendar.

A cada passo que imagino, e que ao mesmo tempo sei que não será dado, corre a desrazão. Ela desmiudava meus pensamentos apenas com seu olhar, o mesmo do retrato, com a boca cerrada, as narinas erguidas e os olhos firmes. As mãos, uma sobre a outra, denunciam o Sol que por elas já raiou. Seus pequenos olhos azuis têm vida na fotografia com efeito de cor da nova câmera fotográfica da minha irmã, traz a luz do mundo ao retrato.

O jardim, repleto de folhagens e girassóis cuidados por suas mãos, parece mais verde do que me lembro da realidade daquele dia. Não sei se foi o tempo ou a câmera fotográfica, contudo a sensação aumentou. O desaparecimento cala e abafa. O que era impressão e suspenso se torna aporia sem pedir licença.

A porta aberta ao fundo me diz sobre o cheiro de café que dela advinha às seis da tarde, pontualmente, e da conversa sobre o dia cheio de afazeres corriqueiros. Os retalhos no parapeito trazem à tona a vassoura que os juntava ao fim de um dia de trabalho, com seu volume a depender da quantidade de tecidos cortados e recortados. As cores são tantas que em contraste com o verde da folhagem, o laranja da casa, o branco das janelas e o lilás do vestido parecem dar a tonalidade de um paraíso sem céu. Com toda essa oposição de cores, o que ainda chama e toma mais o olhar são as pequenas mãos e pés. Não há quem sobre eles não volte os olhos.

A textura do tecido não é a da pele. O sucessivo contato não estabelece continuidades. As rupturas não deixam de se intensificar e agigantar. Além da ausência do corpo, da voz, do tato, entre outras, os objetos que por tempos acompanharam sua existência foram paulatinamente se esvaindo. O mais difícil foi tirar do cabide o vestido lilás, dobrá-lo, alisando cada amassado, e guardá-lo ao fundo da gaveta-do-que-não-se-usa-mais. Depois dele, outros vieram, como seu armário, que foi vendido por meio de um anúncio colocado em frente minha casa. Com cada interessado que entrava para ver o armário, retornava a lembrança das manhãs em que se ouvia um leve ranger de portas juntamente com um pigarro insistente.

Para dar lugar a novos móveis, também a cama foi embora com o pequeno criado mudo. O inferno aparente de se dividir quarto com uma irmã e um irmão tinha acabado. Ganhava um quarto todo meu: o sonho de toda a vida! O que não podia imaginar era a solidão de se ler sem ter o ruído da irmã ouvindo Metálica no fone de ouvido e do irmão teclando incessantemente. Nunca havia previsto o vazio de não se ter incômodos. Mas foi assim que as coisas ficaram para não ter de dar o braço a torcer e ter de voltar atrás de um desejo tão reivindicado, apesar de a visita constante aos quartos ter virado rotina. O vestígio de que um dia aquele quarto fora de minha avó foi se apagando aos poucos.

As transformações no quarto de costuras não foram tão indolores assim. Uma máquina de costuras. Uma mesa de cortar. Uma cadeira acolchoada. Dois banquinhos. Um sofá puído de dois lugares. Um antigo tear. Uma prateleira. Uns artigos diversos de costura. O novo porta-retratos. Nada disso queria perder seu espaço, é como se tivessem criado raízes imaginárias que levassem diretamente ao planeta-sem-corpo em uma conexão onde o objeto e sua alegoria tivessem se naturalizado e a presença de um se tornasse a presença de outro sem estranhamentos. Com o passar do tempo, o comparecimento constante dos objetos tornou a ausência da vida uma tristeza apaziguada. O apego anterior à existência migrou aos objetos.

Seu quarto pessoal não lhe corporificava como seu quarto de costuras. As duas portas – uma para a rua, outra para o resto da casa – e as duas janelas são, mesmo que isso possa ser entendido como clichê, metáforas de seu corpo. Sua existência ensimesmada, aparentemente de poucos afetos, recolhia no fundo uma vontade de expansão. De suas mãos calejadas de alfinetes e agulhas tive poucos afagos. Me embrenhava em seu colo esperando suas mãos – mesmo sabendo que lhe custava muito – que com esforço vinham contidas, mas amáveis. De bruços em seu colo, olhava seus pés um sobre o outro.

3 comentários:

  1. Adorei demais o blog! Já está nos favoritos... bjs

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  2. E ae, Bruna! Tenho um presente pra vc no meu blog.

    PS: Isso não é spam! hehe

    Bjs!

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  3. Ótimo texto, tocante, bem costurado, colorido, poético! Parece um patchwork bem feito com retalhos de memórias, ou uma pintura aquarelada, e quase chego a ver o quarto de costura, os botões, o vestido lilás... Parabéns pela escrita primorosa. Vou linkar o teu blog para voltar outras vezes! Deixo abraços alados, azuis e lilases.

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